Quase 1 milhão de passaportes expostos por software de clubes de cannabis
Empresa irlandesa deixou documentos de identificação em URLs públicos, sem palavra‑passe. Há dados de europeus, celebridades e turistas que só queriam fumar discretamente.
Empresa irlandesa deixou documentos de identificação em URLs públicos, sem palavra‑passe. Há dados de europeus, celebridades e turistas que só queriam fumar discretamente.
Não foi um hacker genial nem uma operação de espionagem. Foram meia dúzia de letras num browser e, do outro lado, passaportes e cartas de condução de perfeitos desconhecidos. O investigador de segurança Sammy Azdoufal tropeçou em mais de 985.000 documentos de identificação expostos na internet, sem qualquer autenticação, ligados a clubes de cannabis que usam software da empresa irlandesa Cannabis Club Systems, também conhecida como Nefos Solutions.
O cenário não é bom… se já entraste num cannabis club em Espanha nos últimos anos, há uma probabilidade desconfortável de a tua foto, número de telemóvel, morada, preferências de cannabis e consumos mensais terem ido parar a servidores acessíveis a qualquer curioso. Segundo Azdoufal, a base de dados inclui milhares de visitantes de vários países europeus, gente da África do Sul e Reino Unido, mais de 30.000 cidadãos dos Estados Unidos e um lote de celebridades que certamente não queriam ver o seu consumo de cannabis ligado ao número de passaporte.
O problema não está nos clubes em si, está no software que lhes foi vendido. A CCS fornece o sistema de gestão para vendas, contabilidade e admissões, incluindo um módulo em que o rececionista fotografa o teu documento e o envia para a “nuvem” da Nefos. Em vez de mostrares o cartão sempre que entras, o funcionário confirma a tua identidade no sistema. Há ainda uma app opcional, PuffPal, que acelera a entrada com códigos QR. Conveniente, até se descobrir que o castelo é de cartas.
Ao desmontar a app PuffPal, Azdoufal encontrou tudo o que não devia lá estar: uma chave secreta da Stripe, a plataforma de pagamentos, em texto simples dentro do código, e um sistema de perfis em que bastava alterar um número no URL para saltar de utilizador em utilizador. Perfis que podem incluir telefone, morada, passaporte e até gostos de erva, tudo servido de bandeja. Pior, as imagens dos documentos estavam alojadas em URLs públicos óbvios, algo como ccsnubev2.com/v8/images/{club}/ID/{user_id}-front.jpg, com os clubes a despejar cerca de 5.000 novos IDs por dia para esse buraco.
Do ponto de vista europeu, isto não é só má prática técnica, é um acidente de viação frontal com o RGPD. Documentos de identificação, dados de saúde implícitos (consumo de substâncias) e informação de contacto expostos desta forma são o tipo de caso que costuma acabar em multas sérias e proibições de tratamento de dados. Quem passou férias em Barcelona, entrou num destes clubes com passaporte português ou brasileiro e confiou no “é só para registo interno” tem agora razões para se perguntar onde anda a sua identidade digital.
Mais do que um escândalo isolado num nicho de clubes de cannabis, isto é um retrato de uma indústria de software que ainda trata segurança como extra opcional. Se empresas que recolhem documentos oficiais, selfies e padrões de consumo não conseguem, no mínimo, pôr palavra‑passe em URLs e esconder chaves de pagamento, então o problema não é falta de reguladores, é falta de vergonha profissional. E sim, a próxima fuga pode ser a app do teu ginásio, do condomínio ou da escola dos miúdos. A diferença é que aqui alguém foi suficientemente teimoso para ir ver.
Fonte: The Verge
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