Qualcomm compra a Modular e mira a guerra do software de chips IA
A dona dos Snapdragon dá quase 4 mil milhões de dólares por uma startup que promete quebrar o feudo de Nvidia e AMD no software de IA. O alvo já não são só smartphones.
A dona dos Snapdragon dá quase 4 mil milhões de dólares por uma startup que promete quebrar o feudo de Nvidia e AMD no software de IA. O alvo já não são só smartphones.
A Qualcomm vai gastar perto de 4 mil milhões de dólares, cerca de 3,7 mil milhões de euros, para comprar a Modular, uma startup de Silicon Valley que faz software para correr IA em vários tipos de chip sem reescrever código. O negócio é pago em ações, até 19,2 milhões de títulos da Qualcomm, e deve fechar na segunda metade de 2026. Para uma empresa criada em 2022, com 150 pessoas, é uma saída relâmpago.
A Modular desenvolve uma plataforma de software para chips e uma linguagem de programação própria que permite escrever aplicações de IA uma vez e executá-las em GPUs, CPUs e ASICs de fabricantes diferentes. Na prática, tenta ser a camada neutra por cima de CUDA (Compute Unified Device Architecture) da Nvidia e de ROCm da AMD, os dois reinos que hoje controlam quase todo o software de IA de alto desempenho. É exatamente essa ambição que agora passa a viver dentro de uma gigante de chips, com todas as ironias do costume.
Para a Qualcomm, o recado é simples: já não chega dominar o telemóvel. Cristiano Amon, CEO da empresa, fala em plataformas “amigas do programador” que correm em ambientes diversos e dão escolha a quem quer pôr modelos de IA a correr em qualquer lado. A empresa tem em desenvolvimento cerca de 40 designs de chips para gadgets de IA, de óculos a relógios, mas também está a empurrar forte para o data center, com CPUs RISC-V e ASICs para clientes como a chinesa ByteDance. A Modular encaixa aqui como cola: se quer disputar espaço à Nvidia nos servidores e manter relevância em PCs e dispositivos móveis, precisa de software que simplifique a vida a quem escreve código.
Do lado europeu, isto cruza-se diretamente com a estratégia de autonomia em semicondutores e com a pressão regulatória sobre plataformas fechadas. Bruxelas não vai obrigar a Nvidia a abrir o CUDA, mas cada movimento que fragilize essa dependência é bem-vindo por quem olha para a guerra dos chips como uma questão de soberania. Para empresas em Portugal que hoje treinam e servem modelos quase sempre em GPUs Nvidia, um stack mais portátil pode significar menos bloqueio a um fornecedor, desde que a Qualcomm não transforme a Modular na sua própria versão de jardim murado.
A história dos fundadores ajuda a perceber o preço. Chris Lattner criou o LLVM e a linguagem Swift da Apple, passou pela Google a trabalhar nos TPUs, ainda chefiou por breves meses o software Autopilot da Tesla. Tim Davis também trouxe bagagem pesada de Google TPU. Quando saíram para fundar a Modular, o argumento era precisamente que o problema de software de IA era estrutural e não se resolvia dentro de uma Big Tech com interesses presos a um tipo de chip. Dois anos depois, vendem a empresa a uma dessas gigantes. Ou foi ingenuidade inicial, ou perceberam que escalar uma alternativa séria a CUDA fora do conforto de um grande fabricante era missão quase impossível.
Para já, a Qualcomm ganha talento e uma plataforma que pode usar como arma contra Nvidia, AMD, Intel e até contra a própria Google nos centros de dados. A Modular perde o estatuto de árbitro independente e passa a jogar com a camisola de um dos clubes. Para quem programa e para quem monta infraestruturas de IA em Portugal ou no resto da Europa, o próximo capítulo será perceber se a promessa de portabilidade se mantém ou se o software da Modular passa a ser mais um argumento de venda de hardware Qualcomm. O mercado não tem falta de chips, tem falta de software decente entre eles. É essa camada que está em leilão.
Fonte: Wired
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