Qihoo 360 diz ter um caçador de bugs de IA mais forte que o Mythos
Pequim entra na corrida aos modelos de IA ofensivos com um enxame multi-agente. O objetivo não é só segurança, é equilíbrio de poder digital.
Pequim entra na corrida aos modelos de IA ofensivos com um enxame multi-agente. O objetivo não é só segurança, é equilíbrio de poder digital.
Quando o CEO da Qihoo 360 chama ao Mythos da Anthropic uma “arma nuclear cibernética”, não está a exagerar para marketing. Está a falar de equilíbrio de poder. Os EUA decidiram que estrangeiros não tocam no modelo, que já expôs falhas profundas em software crítico, incluindo infraestruturas governamentais. A resposta chinesa chega agora em forma de enxame de agentes de IA, apresentado na Conferência de Cibersegurança de Pequim.
Zhou Hongyi admite o óbvio que muita propaganda evita: os modelos de IA chineses ainda andam 20 a 30 por cento atrás nos “fundamentos”. Traduzido, falta capacidade bruta de modelo, chips e treino para replicar um Mythos. Em vez de copiar o adversário, a Qihoo 360 propõe outra rota, mais artesanal e menos glamorosa: pegar em 20 anos de combate a malware, numa biblioteca absurda de código malicioso, e destilar isso em modelos e agentes especializados em segurança que trabalham em conjunto.
O sistema, batizado “Tulongfeng”, é apresentado como um enxame multi-agente. Em vez de um modelo gigante a analisar tudo, tens vários agentes a cooperar: primeiro mapeiam a superfície de ataque e priorizam o que é mais crítico, depois seguem o fluxo de dados entre ficheiros para caçar vulnerabilidades. Automatizam a criação de sandboxes, geram código de exploração, testam na prática e, ponto importante, marcam cada falha como confirmada, não apenas suspeita. No fim ainda fazem um “debrief” automático para aprender com cada operação. É a lógica de uma equipa de Red Team, mas em modo industrial.
Zhou mostra números para dar peso ao discurso: um bug de escalada de privilégios no kernel do Windows adormecido há cinco anos, uma falha de execução remota em Office com oito anos, outra em Excel com dez, todas alegadamente validadas pela Microsoft. Diz também que o Tulongfeng encontrou falhas em OpenClaw, uma framework de bots de IA já conhecida como lixeira de segurança. É impossível verificar de fora o detalhe técnico, mas a mensagem é clara: “se o Mythos pôde vasculhar código americano, nós também conseguimos fazer o mesmo a software global”. Numa altura em que modelos como o Mythos já encontraram falhas em sistemas secretos dos EUA, a pressão geopolítica em torno destas ferramentas é tudo menos abstrata.
Ao lado deste enxame de caça a bugs, a Qihoo 360 apresentou ainda o “Yitianzhen”, uma ferramenta de IA que simula ataques a infraestruturas digitais de organizações chinesas, identifica fraquezas e até aplica correções sugeridas. A empresa montou uma aliança de fornecedores locais para o usar em larga escala. Isto aproxima-se perigosamente da lógica de corrida armamentista: cada bloco constrói modelos para testar, explorar e defender, enquanto regulações tradicionais andam atrás do prejuízo. Para quem está na Europa, habituado a ver Bruxelas a falar de crime digital em tom burocrático, o contraste é evidente.
No meio disto, a distinção entre “ferramenta defensiva” e “arma ofensiva” é cada vez mais académica. Um enxame de agentes capaz de encontrar e explorar falhas décadas depois de o código estar em produção não é neutro, é poder puro. A Qihoo 360, já banida nos EUA, posiciona-se como peça central da estratégia chinesa nesse tabuleiro. O resultado prático é simples: o software que usamos, de Windows a projetos open-source, passa a ser escrutinado por IAs que respondem a interesses estatais, não a comunidades técnicas. Quem ainda acha que segurança é só patch Tuesday não está a olhar para o tabuleiro inteiro.
Fonte: The Register
Comentários · 0