Pokémon Go alimentou modelos de IA
Milhões de vídeos feitos por jogadores de Pokémon Go alimentaram modelos de navegação usados em robots de entrega e potencialmente em drones militares. Tudo dentro dos termos de uso, claro.
Milhões de vídeos feitos por jogadores de Pokémon Go alimentaram modelos de navegação usados em robots de entrega e potencialmente em drones militares. Tudo dentro dos termos de uso, claro.
Há quase dez anos andávamos na rua a caçar Pokémon com o telemóvel na mão. Agora sabemos que uma parte desses passeios serviu para treinar tecnologia de navegação que pode acabar em drones militares. Não é exatamente a evolução que muitos tinham em mente quando aceitavam mais uma permissão de câmara na app.
O caso gira à volta da Niantic Spatial, empresa de IA (inteligência artificial) criada em 2025 a partir da Niantic, estúdio original de Pokémon Go. Antes do spin-off, a Niantic já tinha anunciado que iria usar scans feitos por milhões de jogadores, e também por utilizadores da app Scaniverse, para treinar um “large geospatial model”, na prática um modelo 3D do mundo físico construído a partir de imagens georreferenciadas de locais reais.
Esses “ground scans” eram uma funcionalidade opcional no jogo: o jogador criava um pequeno vídeo de um ponto de interesse público, como uma estátua ou uma fonte, em troca de recompensas. Segundo a Niantic Spatial, citada pela Ars Technica, as imagens serviram para treinar modelos de IA que reconhecem e interpretam espaços físicos. A empresa sublinha que os modelos são um produto derivado, não uma forma de aceder diretamente aos vídeos originais. Juridicamente é defensável, eticamente é bastante mais discutível.
Depois do spin-off, a Niantic Spatial treinou o seu sistema com cerca de 30 mil milhões de imagens, sobretudo em ambientes urbanos que o próprio jogo incentivava a visitar. O conjunto de dados é particularmente valioso porque inclui o mesmo local filmado de vários ângulos, com luz e meteorologia diferentes, mais metadados sobre localização e orientação do telemóvel. Resultado: um sistema de posicionamento visual capaz de dizer a um dispositivo onde está e para onde está virado, comparando aquilo que a câmara vê com mapas 3D detalhados. Útil em interiores, em cidades com GPS pouco fiável ou em cenários de interferência deliberada de sinal.
Em março de 2026, a MIT Technology Review destacou esta tecnologia quando a Niantic Spatial anunciou uma parceria com a Coco Robotics, que quer usar o sistema em robots de entrega de quatro rodas para navegar ruas de cidade. Até aqui, polémica moderada: é o típico uso “smart city” que as empresas adoram vender. O problema é que, em dezembro de 2025, a Niantic Spatial já tinha fechado acordo com a Vantor, uma empresa de “inteligência espacial”, para desenvolver um sistema de posicionamento para veículos terrestres e drones em ambientes sem GPS. Os comunicados não dizem “militar” preto no branco, mas a descrição encaixa como uma luva em aplicações de defesa.
Para jogadores em Portugal que passaram horas a fazer scans de rotundas, igrejas e estátuas para ganhar bónus, a sensação é agridoce. A Niantic tinha referências a isto na política de privacidade desde 2019, mas esconder decisões com impacto potencialmente militar em parágrafos legais é cumprir a lei no mínimo denominador comum. O episódio volta a expor o fosso entre consentimento formal e entendimento real. Se jogos de realidade aumentada podem transformar passeios de fim-de-semana em treino para drones, talvez seja altura de tratarmos dados geoespaciais com o mesmo cuidado que já devíamos estar a dar aos dados biométricos.
Fonte: Ars Technica
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