Oura soma prejuízo de 924M$ para recomprar as próprias ações
O anel inteligente pode ser lucrativo na operação, mas o caminho para a entrada em bolsa ficou bem mais caro depois de Oura pagar quase mil milhões em prémios a investidores iniciais.
O anel inteligente pode ser lucrativo na operação, mas o caminho para a entrada em bolsa ficou bem mais caro depois de Oura pagar quase mil milhões em prémios a investidores iniciais.
Oura está a preparar-se para entrar na Nasdaq e os números do prospeto fizeram curto-circuito nas manchetes. Reuters e Wall Street Journal falaram de uma empresa finalmente lucrativa. Bloomberg abriu com um prejuízo de 924,3 milhões de dólares. Os dois lados têm razão. Estão só a olhar para linhas diferentes da mesma página.
No formulário S-1 entregue à Securities and Exchange Commission, Oura apresenta um lucro líquido de 60,8 milhões de dólares nos primeiros nove meses de 2026. Três linhas abaixo, surge um dividendo “presumido” de 985 milhões para detentores de ações preferenciais resgatáveis. Subtrai-se um ao outro e aparece o tal prejuízo de 924,3 milhões, rotulado como perda atribuível aos acionistas comuns. Não é magia financeira, é contabilidade a transformar uma operação de capital num buraco no resultado final.
O ponto chave está nesse dividendo presumido. Segundo as notas da própria empresa, os 985 milhões resultam do prémio pago para recomprar ações preferenciais acima do valor contabilístico. Traduzindo: Oura decidiu comprar de volta uma fatia grande do capital aos primeiros investidores, a preços de 2026, e a diferença entre o que essas ações valiam no balanço e o que foi pago cai diretamente em défice acumulado. Não é um prejuízo operacional, é a fatura de uma aposta de engenharia acionista antes do IPO.
Os números ajudam a pôr isto em perspetiva. Em nove meses, Oura gastou 1.172,9 milhões de dólares a recomprar ações comuns e preferenciais. Só uma oferta pública em fevereiro limpou mais de 13,2 milhões de ações preferenciais a 40,18 dólares cada, cerca de 534,2 milhões. Em janeiro, outra operação com dois bancos de investimento retirou mais 5,4 milhões de ações a 17,71 dólares, por 96,4 milhões. No total, o fluxo de caixa usado em atividades de financiamento chegou a 741,8 milhões negativos. Não é exatamente o perfil “lean” que o marketing de hardware vestível gosta de vender.
Para financiar esta dieta agressiva de recompras, Oura não viveu só de caixa próprio. A empresa sacou 375 milhões de dólares de uma linha de crédito rotativa durante o mesmo período, admitindo no S-1 que usou principalmente esse dinheiro para financiar as recompras. Ou seja, parte substancial do prémio pago a investidores iniciais foi feita à custa de dívida. Oura entra na bolsa com um negócio de anéis inteligentes que gera lucro, mas com o balanço marcado por um esforço caro para redesenhar a base acionista antes de chegar ao mercado público.
Para quem olha de fora, sobretudo na Europa onde o produto concorre diretamente com smartwatches e pulseiras de fitness vendidos em lojas como a Amazon e a FNAC, isto levanta duas questões. Primeiro, quanto do dinheiro futuro dos subscritores e das vendas de anéis vai servir para pagar essa fatura passada. Segundo, se esta agressividade em recompras não é um sinal de que o verdadeiro jogo para Oura se joga menos no dedo dos utilizadores e mais na cap table. O anel mede o sono, o pulso e o stress. O prospeto mede outra coisa: quanto custa, em números reais, controlar quem manda na empresa antes de a expor ao escrutínio diário da bolsa.
Fonte: The Next Web
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