Operadores de satélites em pânico com o aperto no mercado de lançamentos
A indústria colocou mais foguetões em órbita do que nunca, mas quem precisa de lugar para lançar satélites está a bater com a cabeça no tecto. E o tecto chama-se Falcon 9.
A indústria colocou mais foguetões em órbita do que nunca, mas quem precisa de lugar para lançar satélites está a bater com a cabeça no tecto. E o tecto chama-se Falcon 9.
Os últimos três anos deviam ser a idade de ouro dos lançamentos: uma média de 270 foguetões orbitais por ano, mais do triplo de há uma década, preços em queda e acesso ao espaço a abrir. Em vez disso, quem vive de pôr satélites lá em cima fala cada vez mais em pânico. Não por falta de foguetões em absoluto, mas por falta de lugares fiáveis onde comprar um lançamento para 2028 em diante.
Caleb Henry, director de investigação na Quilty Space, resume o ambiente entre operadores de satélites de forma pouco diplomática: “temos uma indústria em pânico”. Casos concretos não faltam. A canadiana Telesat, com 11 lançamentos Falcon 9 reservados para a sua nova constelação, tem recusado pedidos de outras empresas que andam a tentar “enganchar” um lugar nesses voos. A Amazon travou o ritmo de produção dos satélites da sua constelação em órbita baixa porque boa parte das dezenas de lançamentos contratados há meia década ainda não está realmente pronta para voar. E a AST SpaceMobile admite em chamadas com investidores que a disponibilidade de lançamentos é agora o factor que limita a implantação da sua rede.
As projecções ajudam a perceber o nó. A Commercial Space Federation fala em milhares de satélites por ano a precisar de lançamento na próxima década. A Analysys Mason estima mais de 37.000 satélites entre 2023 e 2033. A Quilty Space nota uma mudança na conversa, de “quantas empresas de lançamento aguenta o mercado dos EUA” para “quem consegue executar mais depressa para acompanhar a procura”. Em teoria, isto é o sonho de qualquer indústria. Na prática, grande parte desta procura cai num funil que depende de uma única empresa privada.
Esse funil chama-se SpaceX. Foi o Falcon 9 que, na última meia-década, evitou que o mercado ocidental de lançamentos colapsasse depois de a Rússia sair de cena com a invasão da Ucrânia, tirando os foguetões Soyuz do alcance de clientes europeus e norte-americanos. Sem esse tampão, empresas como a OneWeb teriam ficado ainda mais expostas. O problema é que o Falcon 9 já passou o pico: 165 voos no ano passado, menos vinte previstos para este ano, e alterações em terra que apontam para uma retirada faseada.
Gwynne Shotwell fala em fim de vida operacional do Falcon 9 por volta de 2030 a 2032, mas na prática há clientes comerciais a terem dificuldade em comprar um lançamento depois de 2028. Segundo fontes ouvidas por Eric Berger, a SpaceX terá dito ao governo dos EUA que pretende acabar com os lançamentos comerciais nessa data, mantendo apenas alguns voos contratados federalmente. Para os operadores de satélites, a mensagem é clara: já não é possível planear o futuro em cima deste cavalo de trabalho. Quem anda a desenhar constelações para os próximos dez anos está a fazer contas de cabeça sem saber se tem foguetão.
Ao mesmo tempo, a própria SpaceX olha para o lançamento comercial como linha de nota de rodapé nas suas contas. No segundo trimestre de 2026, 4,3 mil milhões de dólares vieram da Starlink, num total de 7,8 mil milhões. Menos de 12 por cento da receita é “serviços espaciais”, onde o lançamento é apenas uma parte. O foco está a mudar para o Starship, satélites Starlink v3 e data centers em órbita, com um sistema de dispensa tipo PEZ optimizado para a sua própria carga. Isto diz tudo sobre as prioridades. O resto do mercado ocidental está a descobrir o que acontece quando a única empresa verdadeiramente eficiente decide que prefere lançar os seus próprios satélites em vez dos dos outros. E descobrir tarde não é um detalhe, como a Europa já devia ter aprendido com o atraso dos Ariane e com casos como o da Rocket Lab e da ArianeGroup que já analisámos em detalhe em foguetes à pinha.
Fonte: Ars Technica
Comentários · 0