CIêNCIA

Foguetes à pinha: Rocket Lab móvel e a paciência da ArianeGroup

Rocket Lab prepara um porto espacial portátil, Firefly queixa-se de falta de capacidade e a ArianeGroup mantém viva a MaiaSpace apesar dos prejuízos. O novo “engarrafamento” em órbita está à vista.

Foguetes à pinha: Rocket Lab móvel e a paciência da ArianeGroup

A indústria de lançadores está cheia, mas não propriamente saudável. O último Rocket Report da Ars Technica pinta um quadro curioso: demasiada procura de lançamentos, pouca capacidade real, contas no vermelho e soluções que começam a lembrar trolhas com andaimes portáteis em vez de grandes obras novas.

A novidade mais concreta vem da Rocket Lab, que quer tornar o pequeno Electron num foguetão quase itinerante. A empresa revelou o sistema GHOST, sigla de “Global Hypersonic & Orbital Spaceport Technology”, um conjunto de infraestrutura portátil que transforma os Electron e os HASTE (banco de ensaio hipersónico suborbital) numa capacidade de “lançar em qualquer sítio, a qualquer momento”, pensada sobretudo para campanhas militares e missões de segurança nacional. A Rocket Lab já opera a partir da Nova Zelândia e da Virgínia, vai acrescentar o complexo do Pacífico no Alasca, e com o GHOST tenta levar o conceito de launch site no camião ao limite.

É uma resposta directa a clientes que pedem mais mobilidade, mas também um sintoma de mercado: quando as grandes bases de lançamento estão cheias e politicamente sensíveis, um porto espacial portátil fica muito mais apetecível. Falta saber se as autoridades espaciais e ambientais vão achar assim tanta graça a plataformas que podem ser montadas “em lado nenhum” desde que haja estrada e marinha simpática. Para quem olha de Portugal, o recado é simples: quem quiser meter payloads pequenos em órbita nos próximos anos vai ter mais opções móveis, mas continua dependente de infra-estruturas e licenças fora da Europa.

Do lado europeu, a história é menos glamorosa. A ArianeGroup decidiu não dissolver a MaiaSpace apesar de um prejuízo de 37,5 milhões de euros em 2025 e de o capital próprio ter caído para negativo. Pela lei francesa, quando o património cai abaixo de metade do capital social, o accionista tem de decidir se fecha a empresa ou reforça a aposta. A ArianeGroup escolheu a segunda via, deixando a MaiaSpace continuar a preparar o voo inaugural do foguete reutilizável Maia. Boa notícia para quem não quer ver a Europa reduzida a cliente de SpaceX e companhia, mas o aviso está lá escrito: os bolsos da ArianeGroup não são infinitos e a paciência pública com derrapagens também não.

Nos Estados Unidos, a Firefly Aerospace ilustra o outro lado da mesma moeda. A produção do foguete Alpha está, nas palavras da empresa, num “máximo histórico”, com o manifest de 2027 “maioritariamente esgotado”. Ao mesmo tempo, o veículo só voou sete vezes desde 2021 e a Firefly recusa-se a dizer quantas missões tem efectivamente contratadas para o próximo ano. O CEO resume bem o mercado: “nunca vimos a capacidade de lançamento tão constrangida”. Produzir foguetões é uma coisa, certificá-los, garantir fiabilidade e encaixá-los em agendas de centros de lançamento é outra. Como se viu recentemente no embate lunar da SpaceX captado por uma sonda sul-coreana, cada falha agora está sob escrutínio global.

Mesmo a Virgin Galactic, que nem sequer está a voar, tenta manter-se no radar com marketing: acaba de concluir a estrutura do primeiro veículo da nova classe Delta e pede ajuda ao público para baptizar a nave, enquanto continua sem data clara para levar de novo turistas ao espaço suborbital. Entre portos espaciais portáteis, startups europeias a arder dinheiro e empresas de turismo espacial à procura de nomes antes de voos, a sensação é que o mercado de lançadores está num ponto estranho. Toda a gente fala em capacidade, poucos mostram cadência estável. Para quem está deste lado do Atlântico a planear missões científicas ou satélites de telecomunicações, o verdadeiro luxo em breve pode não ser potência, será fiabilidade com calendário que se cumpra.

Fonte: Ars Technica

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