OpenAI vende uma bola de basquete do ChatGPT por 70 dólares
A mesma empresa que quer automatizar o trabalho intelectual está a vender uma bola de borracha com logo de IA. Não é só merchandising, é sinal do momento estranho em que a indústria vive.
A mesma empresa que quer automatizar o trabalho intelectual está a vender uma bola de borracha com logo de IA. Não é só merchandising, é sinal do momento estranho em que a indústria vive.
Na mesma semana em que a OpenAI decidiu estrear-se em hardware com um mini-teclado de 230 dólares pensado para o Codex, apareceu discretamente outra estreia física: uma bola de basquete com marca ChatGPT. Não é piada de 1 de abril, é um produto oficial, apresentado como parte de uma campanha chamada “Pause. Play. Prompt.” que, curiosamente, quase não existe em lado nenhum no próprio site da empresa.
A descrição é solene: a bola seria um lembrete físico de que a criatividade não vive só nos ecrãs. Traduzido para linguagem menos cor-de-rosa, é uma tentativa de dizer aos devs que passam o dia a pedir código ao GPT-5 que também podem ir lá para fora atirar umas bolas. O problema é que esta moral da história vem da mesma indústria que está a disparar emissões de carbono com centros de dados dedicados à IA generativa, como se viu recentemente com números de consumo energético de Google e Amazon. Há aqui uma dissonância curiosa: o merch manda-te para o campo, a infraestrutura empurra o planeta para o vermelho.
A bola custa 70 dólares, cerca de 65€, por um modelo 100% borracha pensado para jogo exterior. Nada de couro premium, nada que justifique o preço além do logo da OpenAI e do charme de ter “ChatGPT” impresso num objecto que, em princípio, vais acertar no ferro dezenas de vezes. Se convertermos para a moeda da casa, a própria OpenAI sugere a piada: o preço equivale a cerca de 56 milhões de tokens de entrada no GPT-5. Ou seja, trocas horas de prompts por um lembrete físico de que devias estar a fazer outra coisa.
Depois vem a pergunta óbvia: para quem é isto. Fora da bolha de Silicon Valley, aparecer num campo de bairro com uma bola do ChatGPT é pedir para seres gozado. O produto funciona como símbolo irónico, ao nível de um tote bag gigante com logótipo de rede social, mas como compra séria parece mais fetiche de coleccionador de tech do que objecto para jogo regular. Também não ajuda que a indústria da IA esteja longe de ser vista como cool no sentido clássico do streetwear ou do desporto: é mais conferência, NDA e slide deck do que alley-oop.
A bola não vem sozinha. A OpenAI montou uma pequena linha de merchandising com frases inspiracionais, como “Good research takes time”, impressas em sweatshirts e um “quarter-zip” de 175 dólares, cerca de 160€, com a palavra “research” em cursivo e direito a descrição pseudo-poética sobre um colarinho que “relembra os nossos dias na academia”. Entre o founder dropout que se gaba de ter fugido da universidade e o investidor que quer crescimento trimestral, alguém há-de achar graça. Mas a linguagem de catálogo parece saída precisamente do tipo de modelo de linguagem que a empresa vende.
No meio disto, a bola de basquete do ChatGPT acaba por ser um símbolo decente da fase em que a IA está: empresas que se levam muito a sério, a movimentar milhares de milhões e a montar mega-fábricas de hardware como a que o Japão está a erguer só com GPUs Nvidia, e ao mesmo tempo a tentar parecer descontraídas com produtos dignos de loja de museu. Não é o merch que define a OpenAI, mas ajuda a perceber até que ponto o culto em torno destas empresas já entrou na fase souvenir.
Fonte: Tech Crunch
Comentários · 0