OpenAI triplica receitas, mas queima milhares de milhões em três meses
A OpenAI fez 5,7 mil milhões de dólares em receitas no primeiro trimestre de 2026, mas gastou 3,7 mil milhões para lá chegar.
A OpenAI fez 5,7 mil milhões de dólares em receitas no primeiro trimestre de 2026, mas gastou 3,7 mil milhões para lá chegar.
A OpenAI entrou em 2026 em modo foguete: segundo documentos citados pelo The Information, a empresa triplicou receitas para 5,7 mil milhões de dólares no primeiro trimestre. O problema é o rasto de combustível. No mesmo período, queimou cerca de 3,7 mil milhões de dólares, mais de metade daquilo que faturou. Para um serviço que, visto de fora, parece “apenas” texto a sair num chat, os números lembram mais uma startup de carros eléctricos em 2019 do que uma empresa de software madura.
O detalhe mais absurdo está na folha salarial em acções. Só a compensação em stock ultrapassou 2,3 mil milhões de dólares, mais do dobro do ano passado. Em teoria é custo não-cash. Na prática, é um sinal claro de que reter talento de IA de topo virou guerra de lances, com Microsoft, Google e Anthropic a puxarem para cima. A margem bruta até subiu de 33 para 39 por cento, um sinal de que a infraestrutura está a escalar melhor, mas pouco consola quando o resto da conta de exploração arde desta forma.
O prejuízo operacional chegou aos 9,3 mil milhões de dólares só neste trimestre. O prejuízo líquido ultrapassou os 21,3 mil milhões, embora 12,4 mil milhões sejam “apenas” reavaliação de direitos de investidores, isto é, contabilidade de capital de risco a meter expressões traumáticas no relatório. A almofada é outra: a OpenAI tem mais de 73 mil milhões em caixa e títulos, muito graças ao abraço financeiro da Microsoft. Por isso não está a pedir cheques novos já. Mas este género de números explica porque é que governos e reguladores andam nervosos sempre que uma empresa destas também se aproxima de contratos públicos ou temas de defesa.
Há ainda o contexto da guerra de preços. A Anthropic e vários modelos chineses, como os da DeepSeek, estão a cortar agressivamente o custo por token, por vezes a uma fracção do GPT-5, segundo a mesma investigação. Numa altura em que a OpenAI se apresenta como guardiã responsável da IA e denuncia campanhas chinesas com IA contra data centers nos EUA, a verdade é mais prosaica: se a concorrência barata ganhar tração, esta queima de caixa deixa de ser só aposta em crescimento e passa a problema estrutural.
Em paralelo, a OpenAI já entregou papelada para um IPO, mas sem data. Sam Altman fala em “boas razões para ser privada”, apontando para progressos em IA auto-aprendiz, uma forma elegante de dizer que não quer investidores de bolsa a olhar trimestralmente para prejuízos de dois dígitos. Outra razão é tática: a Anthropic também se prepara para entrar em bolsa, alimentada pelo sucesso em clientes empresariais de código. Não é difícil imaginar Altman a preferir ver primeiro quanto vale o vizinho antes de abrir o próprio livro.
Para quem está em Portugal, estes números servem de lembrete: quando se depende de serviços de IA hospedados por estas empresas, está-se a montar negócio em cima de plataformas que ainda não provaram modelo económico saudável. Hoje há créditos generosos e APIs com desconto, amanhã pode haver cortes de serviço ou revisões de preços bruscas, sobretudo se a guerra de margens apertar. A narrativa é de progresso técnico inevitável. As contas, por enquanto, são de empresa em hiper-crescimento a viver à boleia de um patrocinador com carteira funda.
Fonte: The Decoder
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