Um satélite com dois braços robóticos flexíveis está a caminho da órbita geoestacionária depois de ter descolado esta semana num Falcon 9 da SpaceX. Chama-se Mission Robotic Vehicle (MRV), é da Northrop Grumman, e vai passar cerca de um ano a subir até aos ~36.000 km de altitude onde vivem uma parte crítica das telecomunicações, TV e vigilância militar do planeta.
Junta-se a três pequenos Mission Extension Pods (MEP), que também foram lançados no mesmo foguetão e que funcionam como mini-rebocadores espaciais autónomos. Quando a frota chegar à órbita final, ficará a viajar à mesma velocidade da rotação da Terra, na mesma faixa usada por satélites comerciais, plataformas de alerta de mísseis e uma quantidade crescente de satélites espiões. É nessa vizinhança sensível que o MRV vai mostrar do que é capaz.
Capaz é pouco. O MRV é provavelmente o satélite de serviço em órbita mais avançado de que se tem conhecimento público. A China tem feito demonstrações discretas: em 2016 colocou em órbita geoestacionária um satélite com braço robótico, e em 2021 lançou o Shijian-21 para uma missão de “mitigação de detritos”. Na prática, acoplou-se a um velho satélite de navegação e rebocou-o para uma órbita-cemitério. Em 2025, o SJ-25 acoplou ao SJ-21 num teste de reabastecimento a longa distância, o primeiro deste tipo tão longe da Terra. Tudo sob o rótulo confortável de limpeza orbital.
Os EUA andavam a ver de longe. O Comando Espacial norte-americano admitiu que a China está a desenvolver satélites manobráveis com tecnologias de uso dual, tanto para serviço como para ofensiva, e citou explicitamente o SJ-21 como exemplo de algo que pode ser usado para mexer em satélites alheios. Washington tinha já “satélites inspetores” a rondar a órbita geoestacionária para vigiar vizinhos, mas nenhum com braços robóticos e capacidade assumida de intervir fisicamente. O MRV muda isso, com um detalhe importante: parte dele é negócio, parte é Defesa.
O pacote robótico do MRV foi desenvolvido no âmbito do programa RSGS (Robotic Servicing of Geosynchronous Satellites) da DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency), com cerca de 420 milhões de dólares de investimento público, mais centenas de milhões colocados pela Northrop Grumman. A empresa já tinha experiência com os Mission Extension Vehicle, lançados em 2019 e 2020, que se acoplavam a satélites comerciais para assumir o controlo de atitude e órbita, prolongando-lhes a vida. O MRV leva isto mais longe: com braços robóticos, não fica preso a um único cliente, pode instalar vários pods de extensão de missão e, em teoria, fazer operações mais finas de reparação ou modificação.
Há aqui duas narrativas paralelas. A oficial, de eficiência e sustentabilidade: reparar em vez de substituir, prolongar a vida de satélites de centenas de milhões de euros, reduzir lixo espacial. E a realpolitik: quem tem um mecânico em órbita tem também, se quiser, um saboteador. A linha entre encaixar um módulo extra num satélite amigo e empurrar um satélite adversário para fora da posição útil é sobretudo política, não técnica. Para quem anda a seguir a ofensiva da IA física em gigantes como a Samsung, que já criou uma divisão dedicada à robótica para pôr braços e pernas à inteligência artificial, o MRV é a versão geopolítica da mesma tendência: robôs, mas agora a mexer no tabuleiro orbital.
Para Portugal e para a Europa isto não é só curiosidade espacial. Uma parte dos serviços que usamos diariamente, do sinal de TV por satélite a comunicações críticas, depende dessa órbita saturada e pouco transparente. O MRV é o primeiro grande anúncio público de que a manutenção robótica em GEO deixou de ser ficção científica. Também é um aviso discreto: o espaço, tal como o fundo do mar ou a infraestrutura de Internet, já não é apenas infraestrutura, é teatro de operações. E quem lá tiver braços articulados ganha vantagem.
Fonte: Ars Technica
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