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O lixo electrónico secreto da IA nos datacenters está a explodir

Novo relatório estima que a vaga de datacenters de IA pode gerar lixo suficiente para dar seis voltas ao planeta em contentores. Não há plano sério para lidar com isto.

O lixo electrónico secreto da IA nos datacenters está a explodir

A corrida à IA está a encher armazéns de servidores e a rede elétrica de stress. Agora há contas para outro custo escondido: o lixo electrónico. Um novo relatório da Basel Action Network (BAN) estima que, até 2050, a infra-estrutura de IA pode gerar sucata suficiente para encher 23 milhões de contentores de 12 metros, alinhados em fila para dar seis voltas à Terra.

O número não aparece do nada. Ao contrário de estudos anteriores, que olhavam quase só para servidores e GPUs, a BAN decidiu contar tudo o que um datacenter de IA arrasta: sistemas de alimentação e distribuição de energia, UPS, baterias, unidades de refrigeração, chillers, torres de arrefecimento, routers, switches e companhia. E ainda uma categoria que baptizaram de “AI Waste Contagion”: desde antenas e equipamentos de telecomunicações até telemóveis e portáteis trocados mais cedo porque “já não aguentam” as novas aplicações de IA.

O resultado desta soma é cru: cerca de 70.000 toneladas de lixo electrónico por cada gigawatt de capacidade de datacenter. Consultorias como a McKinsey projectam a capacidade global a escalar a olhos vistos com a febre da IA generativa. Já tínhamos falado do lado da energia, dos problemas de fornecimento de eletricidade nos EUA e dos acordos da Google para ir buscar geotermia onde conseguir. Faltava olhar a sério para o que acontece quando todo este ferro perde utilidade.

Convém lembrar que o mundo já gera 68,3 milhões de toneladas de e-waste por ano, e menos de um quarto entra em canais formais de recolha e reciclagem. O resto desaparece num circuito cinzento de “reciclagem informal”, onde queimar cabos e placas a céu aberto continua a ser o método de eleição para extrair cobre e outros metais, com direito a chumbo, crómio e fumo tóxico para trabalhadores e comunidades locais. A Organização Mundial da Saúde fala em milhões de crianças expostas a este tipo de cenário. A BAN prevê que o total de lixo electrónico global triplique até 2050, para cerca de 211 milhões de toneladas anuais, com 15 a 20 por cento atribuídos directamente à IA.

Há ainda a dimensão geopolítica. Os EUA são o país com mais datacenters do mundo e ainda não ratificaram a Convenção de Basileia, que limita o comércio internacional de resíduos perigosos. Investigações já mostraram recicladores americanos a exportar resíduos electrónicos sob rótulos criativos para países com regras mais frágeis, onde a tal “reciclagem de quintal” floresce. A Europa gosta de se ver como campeã da regulação verde, mas continua a depender de cadeias de reciclagem globais opacas, e está a aplaudir datacenters de IA como investimento estratégico sem exigir planos de fim de vida minimamente detalhados.

Portugal anda entretido com centros de dados como promessa de emprego e fibra nova, mas discute pouco o contrato completo: décadas de consumo energético e, no fim, uma pilha de hardware especializado difícil de reutilizar. Jim Puckett, fundador da BAN, resume bem o problema: a IA parece intangível, mas cada modelo vive pendurado em hardware ultra-específico, com ciclos de substituição cada vez mais curtos. Sem regras claras para prolongar a vida útil, proibir exportações de lixo perigoso disfarçado e obrigar fabricantes e operadores a pagar a factura completa do desmantelamento, a moda dos agentes de IA e companhia arrisca transformar-se no maior programa de exportação de sucata tóxica dos próximos 30 anos.

Fonte: The Verge

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