Google assina acordo recorde para energia geotérmica para alimentar IA
Acordo de 396 megawatts com a Fervo Energy é o maior contrato geotérmico de sempre e mostra até onde a Google está disposta a ir para dar eletricidade aos seus centros de dados.
Acordo de 396 megawatts com a Fervo Energy é o maior contrato geotérmico de sempre e mostra até onde a Google está disposta a ir para dar eletricidade aos seus centros de dados.
A febre da IA não se mede só em GPUs e modelos gigantes. Mede-se em megawatts. A Google acabou de assinar com a Fervo Energy aquilo que é, até agora, o maior contrato de compra de energia geotérmica do mundo: 396 megawatts dedicados a alimentar um novo centro de dados no Utah, nos Estados Unidos.
O acordo, anunciado a 1 de setembro, financia o desenvolvimento do Cape Station, um conjunto de sistemas geotérmicos melhorados, conhecidos como EGS (Enhanced Geothermal Systems), no condado de Beaver. A primeira eletricidade deve chegar à rede no final de 2026, mas a capacidade que a Google reservou só deverá começar a entrar em operação em 2028. Há ainda a opção de subir quase até 1 gigawatt até 2030. Para ter escala, isto é da ordem de vários parques eólicos offshore médios, concentrados numa tecnologia que quase ninguém fora do setor energético conhece.
Os EGS são a versão hacker da geotermia clássica. Em vez de depender de reservatórios naturais perfeitos, com calor, água e rocha permeável no sítio certo, as empresas perfuram a grande profundidade e injetam água para abrir fendas em rochas quentes e pouco permeáveis. Criam, na prática, um reservatório artificial onde a água circula, aquece e volta à superfície para gerar eletricidade. A Fervo combina isto com perfuração direcional e fraturação em múltiplas fases, técnicas importadas da indústria do gás de xisto que muitos ambientalistas detestam, mas que aqui estão ao serviço de uma fonte renovável.
Mesmo assim, nos Estados Unidos a geotermia representa apenas cerca de 0,4% da produção elétrica em larga escala. O obstáculo não é físico, é económico. Perfurações profundas e risco geológico custam caro, e os bancos não adoram tecnologias que ainda não provaram escala. É aqui que entra a Big Tech. Segundo Roland Horne, diretor do programa de Geotermia da Universidade de Stanford, a Google provavelmente pagou acima do preço de mercado nos primeiros projetos, como o Project Red no Nevada, exatamente para fazer a indústria mexer-se. Quando tens centros de dados a comer energia 24/7, pagar um prémio para garantir fornecimento limpo e estável passa a ser um custo operativo aceitável.
Para as tecnológicas, os EGS têm uma vantagem que solar e eólica não conseguem dar: produção contínua. Painéis solares e turbinas eólicas podem ser baratos, mas não garantem eletricidade permanente sem apoio de baterias massivas ou gás natural. Um centro de dados não pode “ir abaixo” porque o vento parou. Geotermia, em teoria, dá energia constante, previsível e com emissões residuais. Não é altruísmo climático, é engenharia de risco de negócio, com o bónus de ficar bem nos relatórios ESG e nas metas de emissões que a Google gosta de apregoar.
Para já, tudo isto passa longe de Portugal. Não vamos ter um Cape Station em Trás-os-Montes tão cedo, embora os Açores sejam uma raríssima exceção europeia onde a geotermia já pesa na eletricidade local. Mas o sinal é claro: a infraestrutura da IA vai empurrar tecnologias que andavam estagnadas há décadas. Se os centros de dados forem o pretexto para finalmente escalar geotermia melhorada, convém que os reguladores e governos europeus estejam atentos. Caso contrário, os megawatts limpos que alimentam os modelos da próxima década vão ficar ainda mais concentrados nas mãos das mesmas três ou quatro empresas.
Fonte: Gizmodo
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