A Nokia decidiu meter a inteligência artificial no pipeline de vídeo onde realmente interessa: nas normas. O Neural Network Post Filter (NNPF), um filtro de pós-processamento com IA para melhorar vídeo comprimido, foi agora aberto como software livre e já está integrado em standards internacionais. Em vez de mais um codec milagroso, é um add-on que trabalha sobre HEVC e VVC, o que torna isto bem mais interessante do que o nome burocrático sugere.
O NNPF funciona depois da descodificação, no lado do utilizador, em dispositivos compatíveis. Pega no vídeo já comprimido, corre um modelo de rede neural e tenta recuperar detalhe e textura perdidos no processo de compressão. O truque está na forma como o modelo certo é escolhido: usa metadados VSEI e SEI, definidos nas normas de vídeo, para sinalizar ao player qual o filtro a aplicar em cada conteúdo. Ou seja, o fluxo continua compatível com o que existe hoje, mas quem tiver hardware com aceleração de IA pode ver melhor imagem a partir do mesmo ficheiro.
Para os serviços de streaming, se isto ganhar tracção, há dois incentivos claros: mais qualidade percebida sem subir bitrate e contas de CDN potencialmente mais baixas. Em vez de inventar um codec proprietário por plataforma, a lógica é aproveitar o que já existe e colar inteligência em cima. Para nós, na Europa, onde a infra-estrutura de fibra é boa mas os dados móveis continuam caros, a promessa de vídeo mais limpo com o mesmo tráfego não é detalhe estético, é custo real ao fim do mês.
O facto de a Nokia ter aberto o código muda o enquadramento político e técnico. Ao contrário das soluções de melhoria de vídeo com IA da NVIDIA, amarradas a GPUs RTX e a SDKs fechados, o NNPF posiciona-se mais perto da filosofia do OpenVINO da Intel, que tenta tirar partido de CPUs, GPUs e NPUs de vários fabricantes. Pôr este tipo de filtro diretamente nas normas reduz espaço para jardins murados de vídeo “premium” que só funciona num certo chip ou numa certa app proprietária.
Há contudo muito caminho entre um standard bonito em PDF e algo que realmente corre numa televisão da sala. Para o NNPF chegar ao utilizador comum, é preciso que plataformas de encoding, fabricantes de chips, marcas de televisores, boxes e telemóveis, e ainda os próprios programadores de aplicações de vídeo, implementem e exponham estes filtros. As grandes plataformas de streaming podem adorar a poupança de tráfego, mas também gostam de manter truques de qualidade como vantagem competitiva. Ver se aceitam uma solução standard e aberta vai ser o verdadeiro teste de maturidade.
Para já, a jogada da Nokia devolve a discussão da IA para um sítio mais saudável: normas abertas em vez de magia negra em SDKs fechados. Num momento em que toda a gente corre atrás de modelos gigantes na cloud, esta abordagem de IA embutida em standards de infraestrutura lembra que há muito ganho em mexer nos alicerces, não só nas luzes da montra.
Fonte: Open Source For You
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