NextBSD renasce: Darwin da Apple volta a pousar em cima do FreeBSD
Um novo maintainer pegou no velho sonho de juntar o kernel de FreeBSD ao código aberto de Darwin, o coração dos sistemas da Apple. A ambição é antiga, o terreno agora é outro.
Um novo maintainer pegou no velho sonho de juntar o kernel de FreeBSD ao código aberto de Darwin, o coração dos sistemas da Apple. A ambição é antiga, o terreno agora é outro.
NextBSD era daqueles projectos que muitos tinham dado como morto, arquivado na pasta dos “e se…?” do universo BSD. Em 2026 volta à carga com novo maintainer, novo repositório e a mesma ambição pouco modesta: misturar o kernel de FreeBSD com componentes abertos de Darwin, a base Unix dos sistemas operativos da Apple.
O reboot, baptizado NextBSD-redux, está alojado num novo GitHub, separado do repositório original que não via commits há sete anos. À frente está Joe Maloney, mais conhecido pelo handle pkgdemon, que já andou pelo projecto antigo e ganhou algum nome ao montar o ambiente de trabalho Gershwin no GhostBSD, uma espécie de desktop “à la macOS” em cima de BSD. Pouco depois de esse trabalho ganhar destaque, Maloney pediu oficialmente para assumir o NextBSD e agora começa a mostrar serviço.
O plano não mudou muito desde 2015, quando Jordan Hubbard, co-fundador de FreeBSD, lançou o conceito: aproveitar o kernel de FreeBSD, robusto e focado em servidores, mas trocar parte do userland por blocos de construção vindos de Darwin. Estamos a falar do kernel XNU, que junta Mach com BSD e usa Mach IPC (Inter Process Communication) para falar entre processos, do sistema de arranque launchd, do framework de drivers IOkit e da infra-estrutura de logging da Apple, entre outros componentes libertados como código aberto.
Na teoria soa simples, na prática o historial é tudo menos animador. Várias tentativas de levar Darwin para hardware de PC acabaram encostadas à berma: OpenDarwin durou de 2002 a 2006, PureDarwin ainda lançou versões em 2015 e 2019, e houve experiências como GNU Darwin e DarwinBSD. Todas bateram no mesmo muro: muito do que a Apple publica foi pensado à medida do seu hardware, das suas equipas internas e do seu ritmo de desenvolvimento, não para uma comunidade externa montar um sistema genérico em cima.
É aqui que NextBSD-redux tenta ser mais pragmático. Em vez de forkar código de Darwin e tentar domá-lo de raiz, parte de FreeBSD actual e puxa apenas os pedaços de Darwin que façam sentido e que ainda estejam vivos, alinhados com o macOS contemporâneo. Em alguns pontos recicla módulos do velho NextBSD, mas o projecto é assumidamente novo, sem nostalgia técnica. Para quem vive em Portugal ou na Europa isto não vai substituir Ubuntu nem Fedora no portátil de trabalho, mas pode ser relevante em nichos onde FreeBSD já é forte, como appliances de rede ou storage, e onde um userland mais próximo do macOS facilite a vida.
Continua a ser um esforço altamente experimental, com uma única pessoa visível a puxar o comboio. Depois de anos em que a Apple aperta cada vez mais o seu jardim murado, a ironia é óbvia: o código que suporta milhões de Macs e iPhones, e que também tem servido de base a investidas menos simpáticas como novo malware para macOS, volta a ser reaproveitado por quem ainda acredita em sistemas abertos e hackáveis. Se NextBSD-redux chegar a algo usável, vai ser menos uma alternativa a macOS e mais uma demonstração prática de até onde o ADN Unix da Apple ainda aguenta longe de Cupertino.
Fonte: The Register
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