LINUX

Debian 12.15 despede-se do x86 de 32 bits, fim de uma era

O último update de manutenção do Debian 12 marca o adeus oficial ao suporte mainstream para PCs x86 de 32 bits. Há também novidades no secure boot e um recuo forçado no GeoIP.

Debian 12.15 despede-se do x86 de 32 bits, fim de uma era

O Debian 12.15 saiu e, à superfície, parece só mais um update de manutenção. Na prática, é o ponto final de uma história longa: é o último lançamento com suporte mainstream oficial para máquinas x86 de 32 bits. Não vai haver Debian 12.16. A partir daqui, quem quiser Debian num Pentium ou Atom antigo entra no território do “faz‑tu‑mesmo”.

Com o Debian 13 Trixie já a rodar há meses, incluindo a recente revisão 13.6 com 244 correcções sob o capot, o projecto fechou a porta à instalação directa em CPUs apenas 32 bits. O sistema continua a suportar binários e bibliotecas de 32 bits, mas o kernel oficial para x86 é agora só 64 bits. Em teoria, nada impede alguém de compilar um kernel 32 bits em cima de Trixie, como fazem distribuições derivadas tipo antiX ou WindowMaker Live. Em prática, isso fica automaticamente fora da rota “oficial” e daquilo que um utilizador médio está disposto a aturar num PC velho resgatado do armário.

Para a maioria de quem lê isto num portátil recente ou num mini‑PC qualquer, o impacto é zero. Em Portugal, o hardware puramente 32 bits praticamente desapareceu do dia‑a‑dia, sobrou em escolas com máquinas jurássicas, associações com computadores doados e alguns routers ou máquinas industriais. Para esse mundo, o Debian 12 passa agora para a equipa LTS, com suporte reduzido até meados de 2028. A mensagem é clara: dá tempo para planear migrações, não é uma promessa de manutenção eterna dos fósseis da informática.

O outro destaque técnico dos novos point releases é o fwupd, a ferramenta de actualização de firmware do LVFS (Linux Vendor Firmware Service), que passa para a versão 2.0.20. Só funciona em sistemas a arrancar em modo UEFI, não em BIOS “legacy”, mas essa limitação compensa com uma função crítica em 2026: consegue actualizar os certificados e a base de dados de secure boot. A Microsoft deixou expirar os certificados originais de 2011 e, sem estes updates, há máquinas que podem acordar um dia e recusar arrancar kernels ou bootloaders ainda marcados com chaves antigas. Para quem administra servidores ou parques de portáteis, especialmente em contexto empresarial ou escolar, isto é daquelas coisas que convém tratar antes de dar problemas.

Há também um passo atrás menos simpático mas revelador: o pacote geoip-database foi revertido para uma versão de 2019. A razão não é técnica, é legal. A MaxMind alterou a licença da base de dados GeoLite, e a nova EULA entra em choque com as Debian Free Software Guidelines. Resultado, o Debian não pode simplesmente distribuir a versão recente como fazia. As notas de lançamento sugerem que quem precisar de dados actualizados compre directamente à MaxMind. Ou seja, software livre aqui, dados comerciais acolá. É um lembrete pouco romântico de que o modelo de “tudo grátis, tudo aberto” tem fissuras, especialmente quando se fala de dados geográficos, IPs e negócios de marketing.

Entre o adeus ao x86 de 32 bits e o recuo no GeoIP, este update de “rotina” do Debian é menos neutro do que parece. Consolida a ideia de que o Debian é conservador, mas não museu, e que até o bastião do software livre tem de navegar um mundo onde certificados expiram e bases de dados “grátis” chegam com letras pequenas. Quem continua preso a ferro‑velho digital tem agora uma data mental, 2028, para arrumar a casa. Ou para assumir, de vez, que prefere viver fora do trilho oficial.

Fonte: The Register

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