Memória em alta: boom da IA enriquece chips, espreme tudo o resto
SK Hynix, Samsung e Micron surfam a febre de IA com lucros triplicados. A conta chega em forma de smartphones caros, servidores proibitivos e risco sério de rebentamento da bolha.
SK Hynix, Samsung e Micron surfam a febre de IA com lucros triplicados. A conta chega em forma de smartphones caros, servidores proibitivos e risco sério de rebentamento da bolha.
Se andas a adiar a compra de RAM ou de um portátil novo, não és só tu a sofrer. A febre de IA nos datacenters transformou a indústria de memória num casino em que, por agora, a casa ganha sempre. SK Hynix e Micron viram as receitas triplicar num ano, a Samsung quase duplicou, à boleia de pedidos insanos de HBM, DDR5 e NAND para servidores com GPU. O problema é que este filme da montanha-russa já passou e costuma ter um fim pouco glamoroso.
A escassez atual é simples de explicar. Toda a produção decente está a ser engolida por clusters de IA, o que seca o resto do mercado. Há falta de memória para tudo, dos servidores às consolas, passando pelos telemóveis baratos que praticamente desapareceram da prateleira porque a DRAM ficou cara demais para caber num orçamento de 150€. Não é só a nuvem que paga mais, és tu no upgrade do PC e o miúdo que leva um Android pior para a escola.
Os três grandes fabricantes respondem como sempre: atiram dinheiro para o problema. A Coreia do Sul anunciou um pacote de 576 mil milhões de dólares, com SK Hynix e Samsung à cabeça, para reforçar produção de chips e “proteger” a cadeia de IA. A Micron soma mais 3 mil milhões de dólares para a cadeia de fornecimento nos EUA e anda a expandir fábricas em Singapura, Taiwan e Japão. O detalhe que se costuma esconder no rodapé é o tempo: qualquer nova fábrica de DRAM ou NAND leva anos até cuspir chips com bons yields.
Entre financiamento, licenças, infraestruturas de energia e água ultra-pura, construção de clean rooms e instalação de litografia e teste, só o arranque já é uma maratona. Depois ainda é preciso afinar tudo até o desperdício ser aceitável. Três anos é um cenário otimista. Resultado: o aperto atual não se resolve em 2027. Um relatório recente da IDC aponta 2028 como horizonte para se começar a sair desta “RAMpocalypse”. Até lá, o preço da memória continua a morder margens em todo o lado, dos fabricantes de portáteis às clouds.
Para as big tech com caixas de guerra obscenas, isto é chato mas suportável, ainda que a fatura energética e de hardware da IA já esteja a distorcer tudo, das emissões da Microsoft às guerras de datacenter que temos visto. Para as startups de IA, é potencialmente letal. Quatro anos de modelos cada vez maiores deram jeito para impressionar investidores, mas com HBM a preço de ouro é difícil fazer sentido económico no custo por token. Quando o capital de risco começar a fechar a torneira, muitos “unicórnios de IA” vão descobrir que o verdadeiro modelo que tinham era subsidiar SK Hynix e companhia.
Fica a dúvida que interessa a quem está em Portugal a pagar hardware em euros: primeiro rebenta a bolha de IA e cai a procura por memória, ou chegam as novas fábricas a tempo de manter o circo a girar? Historicamente, a memória vive de ciclos violentos de excesso e escassez. A diferença agora é que o vício de IA está a puxar mais forte do que nunca. Se houver correção séria, a próxima vaga de RAM barata poderá significar também uma limpeza pesada no sector de IA. Até lá, cada módulo que montas no PC é um pequeno imposto para manter a festa nos datacenters.
Fonte: The Register
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