Marlin, o motor de busca caseiro para quem já se cansou do Google
Um programador montou um índice de 560 mil sites com IA barata e código aberto. A parte difícil não foi a GPU, foi domar o caos das categorias.
Um programador montou um índice de 560 mil sites com IA barata e código aberto. A parte difícil não foi a GPU, foi domar o caos das categorias.
Um gigabyte de disco, cerca de 10$ em GPU na cloud e um fim‑de‑semana livre. Foi o que o programador britânico Alex Morley‑Finch precisou para montar o Marlin, um motor de busca pessoal que ignora o ruído corporativo da web e se concentra em portefólios, zines, projectos de arte esquisitos e software de uma só pessoa. Aquilo que quase nunca sobe ao topo no Google, ocupado com SEO, anúncios e resultados artificiais.
O projecto é aberto e está no GitHub. A arquitectura é propositadamente esquelética: um “fetcher” que recolhe domínios e só olha para homepages, um “worker” que chama um modelo de linguagem compatível com a API da OpenAI para resumir cada página, um “steward” que filtra lixo antes de entrar no índice e uma API com interface web para pesquisar e aplicar filtros. Nada de varrer IPs, nada de Redis, nada de HTML completo guardado, nada de multi‑tenant. É a antítese de um Google Search cheio de camadas, e precisamente por isso é viável para um portátil e uma conta modesta na cloud.
Claro que o plano romântico de “catalogar só o que interessa” chocou com a realidade. A primeira versão, montada em poucas horas, acabou a indexar “a web errada”. Mais de 90 por cento das páginas eram sites corporativos e documentação. Em vez de listas negras de domínios, Morley‑Finch optou por um sistema de pesos de crawl: categorias e tipos de site preferidos sobem na fila, o resto vai para o fundo. A metáfora é simples, mas a implicação é forte, sobretudo num momento em que a própria UE anda a pensar em alternativas à dependência do índice da Google. Se cada pessoa ou comunidade puder definir o que é “prioritário”, o monopólio cultural do algoritmo central começa a fissurar.
O calcanhar de Aquiles do Marlin não foi o custo nem a infraestrutura, foi a classificação. Morley‑Finch deixou o modelo escolher livremente categorias e “tags”, na esperança de que a IA lhe ensinasse uma taxonomia em vez de a impor logo. Resultado: 671 categorias distintas, muitas usadas uma única vez, e mais de 121 mil tags, metade delas também únicas. Uma sopa semântica. Teve de escrever uma ferramenta manual de fusão para limpar aquilo tudo, e concluiu o óbvio que muita gente em IA prefere ignorar: se deixas o modelo “freestyle”, a entropia chega rápido. IA barata indexa, mas não substitui o trabalho de curadoria.
O próprio autor admite que este desenho dificilmente escala para lá de hobby de fim‑de‑semana. Mas é precisamente aí que está a graça. Não é suposto ser a próxima Google, é uma recusa prática da ideia de que pesquisa na web é um serviço único, centralizado e inevitavelmente atrelado a modelos gigantes que canibalizam a própria web que indexam. Há quem prefira desligar as camadas de IA da Google nas ferramentas do dia‑a‑dia, como no nosso guia para tirar o Gemini do Gmail e do Docs. Morley‑Finch foi um passo ao lado: se não gostas da forma como te mostram a internet, constrói tu o teu filtro.
O repositório de Marlin já tem tutoriais e detalhes suficientes para quem quiser replicar a aventura e apontar o crawler para os seus próprios cantos favoritos da rede. Não vai matar o Google, nem precisa. Basta que mais gente olhe para a pesquisa como algo que se pode moldar em casa, em vez de aceitar a versão pré‑embalada que hoje decide o que aparece no teu ecrã.
Fonte: The Register
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