John Jumper troca a DeepMind pela rival Anthropic em plena guerra da IA
O cientista que pôs a biologia no modo software leva o prestígio do Nobel para uma Anthropic sob fogo político e regulatório. A Google perde mais um nome pesado.
O cientista que pôs a biologia no modo software leva o prestígio do Nobel para uma Anthropic sob fogo político e regulatório. A Google perde mais um nome pesado.
John Jumper, Nobel da Química em 2024 pelo trabalho no AlphaFold, está de saída da Google DeepMind para se juntar à Anthropic. Não é só mais uma mudança de LinkedIn. É o cérebro por detrás do modelo que transformou a previsão de estrutura de proteínas numa tarefa de IA a mudar-se para a empresa que tem passado os últimos meses entre pressão política em Washington e polémicas em torno dos modelos Mythos e Fable.
Jumper passou quase nove anos na DeepMind. Num post no X, agradeceu a Demis Hassabis por lhe ter dado a liderança da equipa de AlphaFold apenas seis meses depois do doutoramento. Chamou à casa antiga um “lugar especial” e disse que continuará atento ao que o grupo descobre a seguir. É o tipo de despedida cordial que se escreve em público. O contexto, esse, conta outra história: a Google tem falhado em transformar várias das suas ferramentas avançadas em produto que empresas queiram pagar, incluindo a área de IA para código onde, segundo a Bloomberg, Jumper também era peça-chave.
Ao mesmo tempo, a Anthropic não está exactamente em maré calma. A empresa foi forçada por Donald Trump a desligar os modelos Fable 5 e Mythos 5, depois de acusações de enviesamento político, e tornou-se alvo de um braço-de-ferro público com a Casa Branca sobre controlo de exportações e segurança de modelos de alto risco. A SK Telecom entrou pelo meio como accionista nervoso, num drama que já detalhámos quando explicámos como a operadora sul-coreana se tornou peça central no caso Mythos em mais de uma frente.
É neste palco que salta um dos nomes mais respeitados da IA “clássica” de ciência dura. Jumper não é só mais um engenheiro de modelos generalistas, é o símbolo de que a IA pode produzir ciência concreta, com impacto em farmacêuticas, desenho de medicamentos e biotecnologia. Ter esse selo Nobel a trabalhar para a Anthropic é munição reputacional num momento em que a empresa está a ser pintada, consoante a semana, como demasiado perigosa ou demasiado domesticada pelo poder político.
Para a Google, é mais um sinal preocupante. Depois de anos a ser o sítio onde os melhores queriam estar, a empresa vê sair figuras como Noam Shazeer, agora na OpenAI, e Jumper, que ajudou a dar à DeepMind um Nobel e um argumento moral de que a IA serve mais do que chatbots que escrevem e-mails. A Alphabet ainda tem dinheiro, infra-estrutura e acesso a dados que a maioria só sonha, mas a erosão de talento de topo é exactamente como começa a erosão de liderança.
Para quem está deste lado do Atlântico, a movimentação tem uma leitura prática: a próxima vaga de ferramentas de IA para ciência e saúde pode nascer, ou pelo menos amadurecer, em casas que hoje estão ocupadas com lutas políticas em Washington e disputas regulatórias. A boa notícia é que o código viaja melhor do que as leis. A má é que a direcção estratégica de empresas como a Anthropic já não se decide só em laboratórios, decide-se em reuniões de segurança nacional.
Fonte: TechCrunch
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