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Irlanda trava concurso de 1.000M€ para Microsoft por soberania digital

Governo irlandês cancelou um mega-acordo só para Microsoft, após críticas sobre dependência dos EUA e exemplos europeus de migração para software livre.

Irlanda trava concurso de 1.000M€ para Microsoft por soberania digital

A Irlanda acabou de puxar o travão a um concurso público para licenças e serviços Microsoft avaliado em até 1.000 milhões de euros. Oficialmente, foi por “matérias de preocupação” levantadas por um interessado. Politicamente, soa muito a desconforto com a dependência de tecnologia dos EUA, num momento em que metade da Europa diz querer fazer o contrário do que continua a comprar.

O ministro Frankie Feighan explicou no parlamento que o Office of Government Procurement cancelou a competição e avisou o mercado. O quadro actual, focado em Microsoft, vale até 350 milhões de euros e expira em setembro de 2027. A ideia do governo era, basicamente, lançar um novo quadro Redmond-only, ainda maior. Ou seja, mais dinheiro para o mesmo fornecedor, numa altura em que a conversa em Bruxelas é soberania digital e diversificação.

Foi aí que o deputado Cian O’Callaghan, dos Social Democrats, decidiu fazer as contas em voz alta: o novo quadro estaria avaliado entre 750 milhões e 1.000 milhões de euros. E perguntou o óbvio que muitos governos fingem não ouvir: alguém avaliou o risco de renovar esta dependência de Microsoft quando outros países europeus estão a sair dessa rota? Listou alternativas bem concretas, todas europeias ou abertas: LibreOffice, Collabora Online, Open-Xchange, Nextcloud, Thunderbird e a suite openDesk montada pelo centro alemão ZenDiS para a administração pública.

Feighan admitiu que o quadro actual cobre apenas licenças e serviços Microsoft, mas insistiu que o governo está a rever o modelo e a ouvir peritos para melhorar “âmbito, especificação e funcionalidades”. O problema é que isso não responde à pergunta política de fundo: porque é que a Irlanda, que preside ao Conselho da União Europeia, nem sequer explora alternativas onde outros Estados já avançaram? O’Callaghan puxou exemplos que custam a ignorar: o estado alemão de Schleswig-Holstein a migrar 30.000 funcionários para LibreOffice, Linux, Thunderbird e Open-Xchange, com poupanças superiores a 15 milhões de euros por ano, e a Gendarmerie francesa a colocar mais de 100.000 postos de trabalho em Linux, com uma poupança prevista de 500 milhões de euros em 15 anos.

Há aqui dois planos que se misturam. Dinheiro e poder. Financeiramente, gastar até 1.000 milhões de euros num único fornecedor sem estudo sério de alternativas parece má gestão, no mínimo. Politicamente e tecnicamente, continuar a colocar dados e operações do Estado em serviços controlados por empresas sujeitas à lei americana é um risco assumido. Não é por acaso que a própria Microsoft já admitiu que não consegue garantir plena soberania de dados face à legislação dos EUA. Em paralelo, cresce na Europa a discussão sobre controlo de infraestruturas digitais, das clouds à IA, seja no contexto dos megacentros de dados que começam a enfrentar resistência local, como já analisámos em a guerra contra megacentros de dados de IA.

Apesar de tudo, o governo irlandês fechou a porta só a este concurso em particular. Feighan deixou claro que a intenção é publicar um novo tender Microsoft “logo que seja exequível”. Ou seja, o recuo é táctico, não estratégico. A Irlanda continua a comportar-se como porta giratória fiscal e tecnológica para gigantes dos EUA, enquanto em Bruxelas se escreve legislação sobre soberania digital que supostamente vale para todos. A questão é quanto tempo é que os Estados-membros vão conseguir dizer que defendem autonomia europeia e, ao mesmo tempo, assinar cheques de nove dígitos para exatamente as mesmas empresas de sempre.

Fonte: The Register

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