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Influencers de IA já se misturam com humanos nas redes sociais

Avatares deixaram de ser bonecos óbvios e começam a ocupar o mesmo feed, marcas e algoritmos.

Influencers de IA já se misturam com humanos nas redes sociais

Os primeiros influencers virtuais eram quase caricaturas. Lil Miquela com o corte de cabelo perfeito, Imma em modo anime cor-de-rosa, Shudu Gram com pele sem um único poro. Tudo ultra-produzido, anúncios pomposos, parcerias com marcas em comunicados de imprensa bem arrumados. Eram personagens digitais assumidas, curiosidades com orçamento de estúdio, não concorrência direta para a malta de telemóvel na mão e ring light no quarto.

Agora o jogo mudou: os falsos começaram a parecer-se perigosamente com os reais. Figuras como Emily Pellegrini ou Aitana Lopez já não têm ar de boneco 3D, têm o look estudado daquele conhecido que está sempre em resorts, festivais e rooftops. Não são propriamente “gente normal”, mas também quase nenhum influencer profissional o é. A diferença é que, por trás destas contas, não há uma pessoa a envelhecer, só uma equipa criativa e uma folha de cálculo.

Aitana, por exemplo, é criada por uma agência espanhola chamada The Clueless, que gere um plantel de influencers gerados por IA. O criador de Pellegrini, que se apresenta como Professor EP, passou de gerir criadores no OnlyFans para vender cursos sobre como fabricar as suas próprias musas artificiais. Esta é a parte relevante: deixou de ser um truque de meia dúzia de estúdios com orçamento. Qualquer pessoa com tempo, alguns prompts decentes e um pouco de noção de marketing consegue montar um “criador de conteúdo” sintético com ar plausível.

O resultado é um feed onde IA já não aparece só em experiências vistosas, mas diluída em tudo o resto. Fotos de “viagens”, vídeos motivacionais, dicas de fitness, opiniões políticas recicladas de chatbots, imagens e clipes que cheiram a banco de imagem mas foram gerados em segundos. Esse ruído junta-se àquilo a que muitos chamam agora slop: conteúdos baratos, repetitivos, feitos para agradar ao algoritmo e encher espaço. As plataformas diziam querer combater isto, na prática continuam a premiar quantidade e retenção, não autenticidade.

Para as redes sociais há duas dores de cabeça. A primeira é de confiança: se não consegues perceber se a pessoa existe, também não sabes se a opinião, o corpo “perfeito” ou o testemunho de um produto são minimamente verdadeiros. A segunda é económica: marcas e agências começam a olhar para estes avatares como solução conveniente. Nunca adoecem, não fazem escândalos fora de guião, podem ser reconfigurados para qualquer mercado em minutos. Inflacionam ainda mais um mercado de influência já pouco transparente e pressionam os criadores humanos a competir com modelos impossíveis literalmente porque não são humanos.

Para quem está deste lado do ecrã, em Portugal ou no Brasil, a linha prática é simples mas pouco confortável: assume-se que qualquer conta polida pode ser, em parte, sintética. As etiquetas de “conteúdo de IA” que as plataformas prometem são difíceis de aplicar num ecossistema de edição pesada, outsourcing e automatização por camadas. As redes passaram anos a empurrar-nos para seguir perfis e não pessoas. Agora estão a descobrir que perfis é exatamente aquilo que a IA produz melhor.

Fonte: The Verge

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