IFA 2026 troca o ‘algum dia’ por IA espalhada por tudo
A maior feira de tecnologia de consumo da Europa assume que a IA já não é montra separada. Em setembro, Berlim mostra como ela se infiltra em cada categoria, da saúde ao lar.
A maior feira de tecnologia de consumo da Europa assume que a IA já não é montra separada. Em setembro, Berlim mostra como ela se infiltra em cada categoria, da saúde ao lar.
A IFA 2026 chega a Berlim de 4 a 8 de setembro com uma declaração pouco subtil: acabou o discurso do “algum dia”. A organização insiste que o tal futuro da IA já não está a cinco ou dez anos de distância, está nos bolsos, em cima da mesa de cabeceira e no pulso. O recado é mais de enquadramento do que de novidade técnica, mas é importante, sobretudo para quem olha da Europa para um mercado saturado de promessas vagas sobre inteligência artificial.
Leif Lindner, CEO da IFA Management, descreve o óbvio que muita gente ainda finge não ver: a IA deixou de ser secção isolada para se tornar camada de fundo em quase tudo. Em vez de um piso dedicado, aparece diluída em dispositivos de casa inteligente, monitores de saúde, wearables, equipamentos de fitness e até gadgets de beleza. A retórica é optimista, claro, mas reflecte o que já se sente nas prateleiras da Worten ou da FNAC, com cada novo electrodoméstico a anunciar qualquer coisa “smart” sem que isso signifique necessariamente valor real para o utilizador.
O segmento de saúde e bem-estar ganha destaque particular este ano. Fala-se de saúde digital, prevenção, fitness ligado à nuvem e dispositivos de beleza que prometem personalização ao milímetro. Em teoria, esta onda de hardware tenta responder à procura crescente por tecnologia que não se limita a contar passos, mas que monitoriza, adapta e toma decisões. Na prática, o risco é claro: transformar rotinas de saúde num fluxo constante de subscrições e dados sensíveis, num contexto em que regras como o RGPD continuam a ser mais travão do que bússola para muitas empresas que querem brincar à medicina sem serem clínicas.
Os números da IFA ajudam a perceber porque é que este discurso interessa fora da bolha alemã. Em 2025, a feira juntou mais de 1.900 expositores de 49 países, mais de 220.000 visitantes de mais de 140 países e um alcance mediático reivindicado acima dos 300 mil milhões de contactos. Não é uma CES de Las Vegas, mas também não é um salão regional. É um dos poucos sítios onde o mesmo corredor junta CEO globais, retalhistas europeus, fundadores de startups, criadores de conteúdo e público comum. Para marcas que querem vender no mercado único europeu, é um palco demasiado grande para ignorar, sobretudo num momento em que a pressão de preços vinda da IA chinesa está a esmagar margens.
Este ano, a feira também sai um pouco do modelo clássico de pavilhão fechado. O Sommergarten regressa com concertos ao ar livre e gravações de podcasts, e o ICC Berlin, um edifício icónico dos anos 70 fechado há mais de uma década, reabre parcialmente para dar à IFA um lado mais cultural. É decoração, sim, mas sublinha outra mudança: a tecnologia de consumo deixou de ser nicho para geeks para se tornar pano de fundo da cultura pop europeia. A IA entra aqui mais como estética e buzzword do que como ciência, o que explica parte da saturação de marketing que já se começa a notar.
Para quem está em Portugal, a IFA continua a ser um bom termómetro para perceber que gadgets vão aterrar nas prateleiras nacionais nos meses seguintes. TVs, routers, aspiradores-robô, relógios de corrida, quase tudo o que conta para o dia-a-dia passa por Berlim antes de chegar aos lineares cá. O desafio não é falta de IA, é excesso. O que interessa separar na edição de 2026 não é quem grita mais “AI-powered” nos slides, é quem consegue demonstrar utilidade concreta, transparência nos dados e alguma contenção num mercado onde o rótulo de IA já vale mais do que a função real.
Fonte: Gizmodo
Comentários · 0