A Apple conseguiu a proeza de lançar novos ícones para as apps profissionais e ter de publicar um artigo de suporte a explicar o que é o quê. Chama-se Creator Studio, é o pacote por subscrição das ferramentas Pro, e trouxe consigo uma colecção de símbolos tão abstratos que já há página oficial “Identify Apple Creator Studio apps on your Mac” para ajudar quem se perde no Dock.
O detalhe mais estranho é que a Apple não matou os ícones antigos. Está a usá-los como distinção entre modelos de negócio: ícones novos para as versões incluídas no Creator Studio, pagas por subscrição, ícones antigos para as apps compradas uma vez, à moda antiga. Como é possível ter as duas versões instaladas, o resultado é um Mac com duas identidades visuais para a mesma aplicação, dependentes da forma como pagas por ela. Do ponto de vista do utilizador, isto não é clareza, é contabilidade gráfica.
O problema começou com macOS Tahoe. A Apple decidiu alinhar o Mac com iOS, confinando tudo ao mesmo quadrado arredondado. Para bundles como o Creator Studio isto parece ter virado dogma: todos a seguir a mesma grelha, a mesma linguagem, o mesmo tom polido de interface de catálogo. Fica coerente numa apresentação de keynote, mas empobrece o que sempre distinguiu o Mac, aquela diversidade visual em que cada ícone tinha personalidade própria e se destacava na pasta Aplicações sem esforço.
O caso de MainStage é quase caricatura. O ícone antigo era um músico em palco, luz de palco a gritar “isto é para tocar ao vivo”. O novo é um elemento gráfico que tanto pode ser um microfone como um slider de mesa de mistura, com efeito Liquid Glass e zero contexto. É “bonito” no sentido genérico, mas podia representar meia dúzia de apps diferentes. Quando é preciso abrir uma página da Apple para confirmar qual quadrado com brilho corresponde a que ferramenta, a metáfora visual falhou.
Há aqui duas camadas que interessam a quem usa Mac em Portugal todos os dias para trabalhar: usabilidade e confiança. Usabilidade, porque ícones funcionam como memória muscular, sobretudo em setups com dezenas de apps criativas diferentes. Confiança, porque usar os ícones antigos para as licenças perpétuas e os novos para a subscrição envia um sinal discreto sobre a direcção que a Apple prefere empurrar: menos compra única, mais renda mensal. A uniformização visual não é neutra, serve também para tornar a subscrição a “nova normalidade”.
A Apple sempre se gabou de desenhar interfaces tão óbvias que dispensam manuais. Se agora precisa de um guia oficial para explicar ícones de aplicações que já existem há anos, alguma coisa se perdeu no processo. macOS Tahoe ganhou coerência de quadrado arredondado, mas o Mac perdeu parte da sua linguagem própria. E quando o design passa a exigir legenda, deixa de ser bom design, por muito polido que pareça no slide.
Fonte: Mac World
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