Harvey lança Tenet, IA jurídica em cima de modelo chinês
A startup apoiada pela OpenAI deixou de “alugar” modelos e construiu o seu próprio. Mas fê-lo em cima do Kimi K3, um modelo aberto chinês, com implicações sérias para firmas europeias.
A startup apoiada pela OpenAI deixou de “alugar” modelos e construiu o seu próprio. Mas fê-lo em cima do Kimi K3, um modelo aberto chinês, com implicações sérias para firmas europeias.
A Harvey, estrela da vaga de IA jurídica em Wall Street, deixou de pagar por cada chamada à OpenAI e companhia. Chamaram-lhe Tenet, é o primeiro modelo próprio da empresa, e a fundação não vem de São Francisco, vem de Pequim: o modelo-base é o Kimi K3, um modelo de pesos abertos da chinesa Moonshot.
Convém recuar meio passo. A Harvey é financiada por investidores como Sequoia e Andreessen Horowitz, mas também pela própria OpenAI. Até agora, o produto vivia em cima de modelos da OpenAI, Anthropic e Google. Cada pedido de um cliente era uma linha de custo variável a sair para um potencial concorrente. Com o Tenet, a empresa faz o movimento óbvio: transforma essa renda permanente em custo fixo e passa a controlar o motor.
O detalhe incómodo é a escolha desse motor. Em vez de um modelo americano licenciado ou de um modelo totalmente treinado de raiz, a Harvey pegou no Kimi K3, um modelo aberto chinês lançado em julho, e fez um pós-treino especializado para direito, em parceria com a Fireworks AI. Post-trained é isso: não é um modelo novo, é um modelo existente ajustado e refinado para um domínio específico. Tecnicamente faz sentido. Politicamente, e do ponto de vista regulatório europeu, é outra conversa.
Para vender isto como produto sério, a Harvey não podia depender só de PDFs públicos e sites de legislação. Contratou advogados internos e externos, incluindo através de empresas como a Mercor e a Snorkel, para inventar litígios fictícios, dossiês de processo e cenários de contencioso. Esses materiais serviram para avaliar e graduar a capacidade de raciocínio jurídico dos vários modelos, e para guiar o afinamento do Tenet. É a versão IA do estágio num grande escritório, mas em escala industrial.
Na Europa, onde se discute o Acto Europeu de Inteligência Artificial, isto cai numa zona cinzenta muito concreta. A Comissão Europeia definiu que quem modifica um modelo de uso geral se torna fornecedor da versão modificada só quando a alteração é “significativa”, com uma regra indicativa: cerca de um terço do compute de treino original. Um pós-treino como este, em cima do Kimi K3, fica quase de certeza abaixo desse limiar. Traduzindo para uma sociedade de advogados em Lisboa ou no Porto: ao usar Tenet, continuas preso a uma cadeia de documentação e responsabilidade que começa num laboratório em Pequim.
Há ainda a camada contratual. A licença do Kimi K3 permite derivados, mas obriga a um acordo separado com a Moonshot se o operador de modelo como serviço passar os 20 milhões de dólares de receita em 12 meses. A Harvey está, alegadamente, acima dos 350 milhões de dólares anualizados. Não é propriamente o caso marginal. Tudo isto acontece enquanto competidores europeus como a sueca Legora perseguem valorizações de 10 mil milhões de dólares com estratégias mais alinhadas com o enquadramento regulatório da UE. No meio do ruído “open-weight” sobre preço e capacidade, a Harvey decidiu mostrar o lado que dói aos juristas: quem controla, afinal, a base da ferramenta que queres pôr no centro do teu trabalho privilegiado.
Fonte: The Next Web
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