GTA 6 pode ser o produto de entretenimento mais caro da história
O novo Grand Theft Auto terá um orçamento que envergonha Hollywood. E levanta uma pergunta menos glamorosa: quantos estúdios conseguem sobreviver a este patamar de custos.
O novo Grand Theft Auto terá um orçamento que envergonha Hollywood. E levanta uma pergunta menos glamorosa: quantos estúdios conseguem sobreviver a este patamar de custos.
Um jogo de mundo aberto com orçamento estimado entre 1 e 1,5 mil milhões de dólares começa a sair da escala do entretenimento e a entrar na da megalomania empresarial. É isso que se diz de Grand Theft Auto VI, que poderá ser o produto de entretenimento mais caro alguma vez feito, acima dos filmes de super-heróis mais caros e a milhas de praticamente tudo o que o resto da indústria consegue pagar.
A Rockstar não confirma valores, claro, mas a fasquia dos mil milhões é hoje repetida por analistas como se fosse óbvia. E percebe-se porquê. Um GTA moderno precisa de atores, argumentistas, equipas de captura de movimento, animadores, programadores, designers, compositores, QA, suporte online. Tudo isto espalhado por quase uma década de desenvolvimento. Hollywood tem produções gigantes que duram dois ou três anos. Aqui estamos a falar de perto de dez, com um nível de detalhe que o próprio estúdio admite ter explodido: 600.000 animações em GTA VI, o dobro de Red Dead Redemption 2 e mais de dez vezes GTA V.
Mesmo fora deste caso extremo, o patamar já assusta. Documentos em tribunal revelaram que a Sony gastou 212 milhões de dólares em Horizon Forbidden West e 220 milhões em The Last of Us Part II. A Activision terá ultrapassado os 700 milhões em custos de desenvolvimento ao longo do ciclo de vida de Call of Duty: Black Ops Cold War, empurrada pelo modelo de serviço contínuo com novos mapas, modos e temporadas. O orçamento inicial do jogo base será bastante menor, mas a mensagem é clara: os AAA vivem hoje confortavelmente nos muitos milhões, às vezes perto da casa dos cem ou mais.
Há um lado racional nisto tudo, pelo menos para quem tem o tamanho de uma Rockstar. GTA V fez 800 milhões de dólares em vendas no primeiro dia e terá rendido cerca de 10 mil milhões até agora. O online continua a gerar milhões por semana em microtransações e subscrições. Com esta máquina de imprimir dinheiro, gastar centenas de milhões, ou mesmo um ou dois mil milhões, em GTA VI passa de loucura a investimento calculado. É um tipo de lógica que raramente se aplica ao resto do mercado, onde cada flop AAA pode arrastar um estúdio ao fecho e uma editora a cortar equipas a régua e esquadro.
O problema é quando este topo da pirâmide define expectativas para todos. O “feature creep” é quase obrigatório, a obsessão por mundos maiores e mais detalhados engole anos de produção, e nem orçamentos crescentes evitam adiamentos sucessivos. A Rockstar já empurrou GTA VI de 2025 para maio de 2026 e agora para novembro de 2026. Noutros estúdios, estes ciclos largos significam menos apostas, menos risco, mais sequelas seguras. E quando se falha, vemos aquilo a que temos assistido nos últimos anos: vagas de despedimentos mesmo após jogos bem sucedidos.
Para quem joga em Portugal, este desfasamento é visível sobretudo no preço e na oferta. Bilhetes de cinema sobem, mas continuas a ter muita escolha entre blockbusters e cinema médio. Nos jogos, o espaço entre o indie barato e o AAA de 80€ encolhe, enquanto as grandes editoras empurram para monetização agressiva e lojas próprias, numa guerra em que até a Epic Games Store tem de queimar dinheiro para aguentar. GTA VI vai provavelmente bater recordes de vendas e lucro. A dúvida é se, no processo, não cimenta um modelo onde só meia dúzia de empresas consegue jogar na liga principal.
Fonte: Engadget
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