O Chrome Canary, a versão de testes mais agressiva do browser da Google, ganhou uma flag nova com um nome pouco inocente: “Fulfill Searchbox Queries in AI Mode”. Traduzindo, a ideia é simples e bastante radical, pelo menos para os padrões de um produto que faz dinheiro com links azuis há duas décadas. Em vez de te levar à página tradicional de resultados, o Chrome passa a atirar cada pesquisa diretamente para o modo de IA da Google.
Hoje, na versão estável do Chrome, fazes uma pesquisa e aterras na aba “Todos”. No topo tens o AI Overview, aquele resumo gerado por IA, e logo abaixo a velha lista de links para sites. Se quiseres algo mais estilo chatbot, tens de mudar manualmente para o chamado AI Mode. Com a flag ativada no Canary, esse passo desaparece: escreves na omnibox, carregas em Enter e surgem logo respostas em formato de conversa, não a grelha clássica de resultados.
O Windows Report, que descobriu a flag, diz que a função está surpreendentemente polida para algo ainda escondido. Funciona em macOS, Windows, Linux e ChromeOS, segundo a própria descrição. Ao mesmo tempo, há uma nota no código a tentar acalmar o drama: isto é “só para exploração” e não há planos atuais para o tornar público. O problema é que, na Google de 2026, tudo o que mexe com IA deixa de ser apenas experiência de laboratório, pelo menos em termos estratégicos.
Em maio, na conferência I/O 2026, a Google já tinha empurrado mais IA para o centro da pesquisa com a nova Intelligent Search Box. Essa caixa aceita vídeos, imagens, ficheiros e até separadores do Chrome como input. Agora testa-se o passo seguinte lógico do ponto de vista interno: se o motor de IA é a estrela, porque é que a primeira coisa que o utilizador vê continua a ser uma página desenhada para o Google de 2004 e não para o de 2026?
Do lado de fora, a leitura é menos romântica. O modelo de negócio da empresa vive dos cliques em resultados patrocinados e em sites de terceiros. Um modo de IA em primeiro plano tende a concentrar tudo na própria Google, do conteúdo às respostas, passando pelos potenciais anúncios integrados no texto gerado. Não surpreende que, depois dos primeiros testes públicos de pesquisa com IA, serviços como o DuckDuckGo tenham visto um salto nas instalações da sua opção sem IA. Há um grupo de utilizadores que prefere fricção a um intermediário inteligente que decide o que é relevante em vez de mostrar o que existe.
Para já, esta flag só está no Canary e exige que abras o menu experimental em chrome://flags. Não é algo que vá aparecer de surpresa no teu Chrome de trabalho amanhã. Mas o simples facto de a Google estar a testar, em código real, a possibilidade de trocar a página de resultados por um chat de IA diz bastante sobre onde está o foco interno. O motor de busca clássico pode não desaparecer tão depressa, mas a luta passa a ser por defeito: quem não for suficientemente atento arrisca-se a trocar a Web aberta por um balão de conversa com a mesma marca no topo.
Fonte: Engadget
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