IA

Google mata a equipa do AlphaFold para alimentar o projecto Gemini

O grupo que rendeu um Nobel à DeepMind foi desmantelado. A prioridade agora é clara: tudo para Gemini, mesmo que isso empurre a ciência para segundo plano.

Google mata a equipa do AlphaFold para alimentar o projecto Gemini
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O grupo que resolveu o chamado “problema do dobramento de proteínas” já não existe dentro da Google. A equipa de topo da DeepMind por trás do AlphaFold, o sistema de IA que valeu um Nobel da Química em 2024, foi dispersa. Uns foram para dentro da própria casa, outros saíram porta fora. O objectivo: libertar gente para trabalhar em Gemini, o modelo generativo que a Google quer meter em tudo, do Android ao Workspace.

Segundo o Financial Times, a empresa realocou a maioria dos autores originais dos artigos científicos do AlphaFold para projectos focados em Gemini, enquanto vários investigadores já trocaram a Google por rivais, incluindo a Anthropic. A DeepMind confirma a mudança de rumo e fala em “estratégia evoluída”. Tradução menos polida: a ciência de longo prazo dá lugar ao produto de curto prazo que pode ser embrulhado em assinaturas e licenças empresariais.

O impacto científico do AlphaFold não é detalhe de rodapé. O programa consegue prever a estrutura tridimensional de proteínas a partir da sequência de aminoácidos em minutos, algo que antes podia demorar anos em laboratório. Está a ser usado para acelerar descoberta de fármacos, desenhar vacinas e estudar alterações estruturais associadas a doenças neurodegenerativas como Alzheimer ou Parkinson. A base de dados pública lançada em 2021, com previsões para mais de 200 milhões de proteínas, tornou-se ferramenta de rotina em laboratórios também na Europa, incluindo Portugal.

É verdade que o código, os artigos e a base de dados continuam acessíveis. Mas quem já viu equipas de investigação desfeitas sabe que o conhecimento vivo não é copiável por git clone. A saída de John Jumper, rosto científico do AlphaFold, para a Anthropic em junho, seguida por colegas, foi o primeiro sinal de que a festa estava a acabar. Agora confirma-se: alguns remanescentes seguem para a Isomorphic Labs, a spin-off de descoberta de fármacos da Alphabet, outros são puxados para o vórtice Gemini. A Google alinha-se assim com um padrão que já vimos na Amazon, quando cortou equipas de AGI enquanto despejava centenas de milhar de milhões em IA aplicada.

Do ponto de vista de negócio, a decisão é quase óbvia. Gemini é a linha de frente na guerra com OpenAI, Microsoft e companhia. AlphaFold, por muito impressionante que seja, não vende anúncios, não empurra subscrições, não mostra crescimento trimestral no mesmo gráfico que o Azure. O problema é o custo de oportunidade: cada investigador retirado da fronteira da biologia computacional para escrever prompts em Gemini é menos capacidade dedicada a problemas onde a IA tem impacto real e mensurável na saúde pública, e não apenas mais um assistant embutido numa barra de pesquisa.

A mensagem para investigadores que colaboram com gigantes tecnológicos fica cristalina. Mesmo um projecto que rende um Nobel pode ser rebaixado a nota de rodapé assim que os ventos de mercado mudam para modelos de uso geral. Em 2018, o AlphaFold era apresentado como prova de que a IA podia atacar “grandes desafios” da humanidade. Em 2026, o grande desafio passou a ser ganhar a corrida dos modelos generativos. A ciência básica fica, outra vez, a pedir boleia.

Fonte: Engadget

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