Google diz que piorou a pesquisa na Europa. Bruxelas leva o crédito
Para cumprir o DMA, a Google mexeu no layout das pesquisas na UE e chamou-lhe a maior queda de qualidade em 29 anos. Os dados para o provar continuam trancados dentro da empresa.
Para cumprir o DMA, a Google mexeu no layout das pesquisas na UE e chamou-lhe a maior queda de qualidade em 29 anos. Os dados para o provar continuam trancados dentro da empresa.
A nova pesquisa da Google na Europa chegou com um aviso raro: a própria empresa diz que é pior. Não em off, não por leak. Em público, em modo comunicado de dano controlado.
O contexto é simples, embora a Google tente complicar. Em julho, a Comissão Europeia aplicou uma multa de 460 milhões de euros por auto-favorecimento em resultados de compras, hotéis, transportes e desporto. A violação está escrita no Digital Markets Act (DMA), a lei dos chamados gatekeepers. Bruxelas deu 60 dias para corrigir. Se não, multa periódica até 5% do volume de negócios global. O que vemos hoje na página de resultados não é uma epifania regulatória, é uma corrida contra o calendário para evitar uma factura ainda maior.
A “remediação” é, acima de tudo, layout. No topo da página aparece agora um motor de pesquisa especializado. A seguir, dois concorrentes com menos informação. Depois, um carrossel de hotéis, companhias aéreas e restaurantes, esvaziado de funcionalidades como preços em tempo real. A ordem continua decidida pelo algoritmo da Google, mas o palco mudou. Nick Fox, vice-presidente sénior responsável por pesquisa, admite “alterações significativas à Pesquisa na Europa” que “degradam a experiência” ao “favorecer intermediários online em detrimento de negócios locais”. E apressa-se a sublinhar que fora da UE nada disto se aplica. O recado político está lá todo.
Há um ponto em que a Google tem alguma razão. Se procuras um pequeno hotel no Porto, o resultado directo desse hotel na nova grelha aparece muitas vezes como texto magro: link, morada, telefone. Já uma intermediária como a Booking surge como “produto”, com inventário por trás. Com a posição premium dada ao comparador, o hotel acaba a pagar comissão por um cliente que já o procurava de forma explícita. É uma crítica séria ao remédio escolhido por Bruxelas, e não deixa de ecoar a discussão mais lata sobre como a UE anda a apertar a Google nos anúncios e na IA, da multa de publicidade à investigação sobre o tal opt-out de IA que pode ser fachada.
O problema é quem conta a história. A Google descreve estas mudanças como a maior queda de qualidade em 29 anos de pesquisa. Mas todas as métricas que suportariam essa frase vivem atrás de portas da própria empresa. Não há dados públicos, não há auditoria independente, não há transparência sobre o que significa “qualidade” num motor de busca que também é uma máquina de anúncios. Pedir que acreditemos, sem mais, que o DMA piora a pesquisa é aceitar que o regulado define sozinho o custo da regulação.
No fundo, a Google está a fazer o clássico manual de relações públicas: cumprir a lei no limite mínimo, mostrar ao utilizador que “a culpa é de Bruxelas” e usar o desconforto como arma política na próxima ronda de negociações. Se a pesquisa na Europa ficou mesmo pior, convinha que alguém que não a Google o pudesse medir. Até lá, o motor de busca continua a ser uma caixa negra em que qualidade é o que o dono diz que é. E isto, para um gatekeeper global, é um risco bem maior do que um carrossel de hotéis com menos brilhos.
Fonte: The Next Web
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