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Google desmonta a DeepMind e recentra a IA na Califórnia

Demis Hassabis perde a liderança operacional, Sergey Brin ganha peso e o laboratório que fez história na IA passa a engrenagem da máquina Google. A aposta muda do modelo para a infraestrutura.

Google desmonta a DeepMind e recentra a IA na Califórnia

Desta vez não é um rumor interno. A DeepMind, o laboratório que pôs a Google no mapa da IA moderna, está a ser absorvida de vez pelo gigante de Mountain View. Demis Hassabis deixa a chefia do dia a dia, é empurrado para o papel decorativo de chairman, e a operação muda-se para a Bay Area, nos EUA. Na prática, a DeepMind deixa de ter CEO próprio. É um departamento de IA da Google com melhor currículo.

Segundo o The Guardian, um ex-gestor da casa diz que a “era da DeepMind como actor independente acabou”. Um funcionário actual resume de forma ainda mais crua: agora é “só mais uma subdivisão” da Google. A gestão diária passa para Koray Kavukcuoglu, investigador de IA que assume o comando a partir dos EUA, sem o título de CEO. Ao mesmo tempo, Sergey Brin, cofundador da Google que já tinha saído da reforma técnica quando o ChatGPT desencadeou o primeiro “código vermelho”, prepara-se para ganhar ainda mais influência sobre a direcção da IA da empresa.

Hassabis, pelo que avançam fontes citadas pela Pathfounders, queria ter saído ao mesmo tempo que Jeff Dean, histórico responsável de IA da Google. A administração temeu outro tombo em bolsa depois do impacto inicial do anúncio da saída de Dean e da mudança de função de Hassabis, por isso encontrou uma saída honrosa: promoção formal, saída faseada. O fundador da DeepMind quer dedicar-se mais à investigação e à Isomorphic Labs, a spin-off farmacêutica da Alphabet, e pode desligar-se em definitivo da DeepMind nos próximos meses. Para quem acompanhou o percurso da casa de Londres, que chegou a dar cartas em ciência pura com projectos como o AlphaGo e a previsão de furacões com mais antecedência, isto é um fim de ciclo.

Com Hassabis encostado à lateral, todo o desenvolvimento em torno do Gemini passa a ser coordenado a partir da Califórnia. A narrativa oficial fala em foco e eficiência, mas a leitura dos analistas é menos simpática. O boletim SemiAnalysis aponta anos de avareza no acesso a computação, burocracia pesada e medo de risco como razões para a perda de fulgor da DeepMind como laboratório de fronteira. A Google tinha sistemas avançados antes do ChatGPT, mas nunca os colocou nas mãos de utilizadores a tempo. Hoje corre atrás da OpenAI e da Microsoft, enquanto promete que Gemini é a resposta para tudo, até ao ponto de matar apps próprias para o empurrar para o centro.

Há um ponto em que quase toda a gente converge: a Google está a seguir o dinheiro imediato. Segundo o SemiAnalysis, Gemini terá uma receita anualizada de 12 mil milhões de dólares, mas a Google Cloud prepara-se para mais de 73 mil milhões em infra-estrutura de IA e 120 mil milhões adicionais em vendas de TPUs até 2027. Se o modelo não é o melhor do mercado, a mensagem passa a ser outra: nós vendemos os tijolos e o cimento da nova era de IA, mesmo que a casa mais vistosa seja de outra empresa. É o risco de se transformar na próxima IBM ou Intel, que se refugiaram em negócios estáveis e deixaram escapar o comboio seguinte.

Tim O’Reilly oferece a contra-narrativa: a Google estará a fazer uma aposta ao estilo Westinghouse, a empresa que ganhou a corrida da electricidade não por inventar tudo, mas por espalhar a rede. Em vez de obsessão com liderança absoluta de modelos, foco em infra-estrutura e distribuição. A comparação é sedutora, mas há uma diferença importante: a IA é hoje uma interface directa com pessoas, não só um serviço de bastidores. Se a Google abdicar de ser referência na camada visível, arrisca-se a ser invisível para quem interessa. Para quem está deste lado do Atlântico, em Portugal ou no resto da Europa, o sinal é claro: a IA que usamos todos os dias vai ser decidida em reuniões de cloud e margens de data center, não em laboratórios londrinos de ciência pura.

Fonte: The Decoder

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