Genesis AI prepara nova ronda gigante para pôr cérebros em robots
Startup quer angariar cerca de 460 milhões de euros para treinar um modelo universal de robótica. Aposta em IA física, simulação extrema e mãos quase humanas.
Startup quer angariar cerca de 460 milhões de euros para treinar um modelo universal de robótica. Aposta em IA física, simulação extrema e mãos quase humanas.
Um ano depois de sair da sombra com uma seed de 105 milhões de dólares, a Genesis AI já está a tentar jogar na liga dos grandes. Segundo a Bloomberg, a startup de IA física está em conversações para levantar cerca de 500 milhões de dólares, qualquer coisa como ~460 milhões de euros, numa ronda que a avaliaria em perto de 3 mil milhões de dólares antes do dinheiro entrar.
É um salto agressivo para uma empresa fundada em 2025, que há poucas semanas apresentou o Eno, um robot sobre rodas pensado como alternativa ao fascínio atual por humanoides. Números desta escala ainda podem mexer, encolher ou cair no vazio, típico de negociações privadas, mas o alinhamento de investidores mostra que o apetite é real: a Premji Invest deverá liderar, com a HSG (ex-Sequoia China) e a Northzone a ponderar reforçar a aposta.
O produto da Genesis é mais cérebro do que corpo. O modelo universal de robótica GENE-26.5 quer funcionar como um “sistema operativo do movimento” para vários tipos de máquinas, alimentado em grande parte por dados sintéticos gerados num motor de física interno que, promete a empresa, corre cenários centenas de milhares de vezes mais rápido do que o tempo real. A tese é simples, mas ambiciosa: se conseguires simular o mundo com precisão suficiente, consegues treinar robots generalistas sem precisar de milhões de horas de dados reais.
Este boom encaixa no surto de capital que anda a inundar a chamada IA física, o mesmo fenómeno que já levou a NEURA Robotics a mirar uma ronda de até 1,4 mil milhões de dólares. A Europa não está à margem, como se viu quando a Samsung decidiu criar uma divisão inteira para apostar em IA física e quando o Japão começou a montar uma mega fábrica de IA só com hardware Nvidia, temas que já dissecámos na Pixel. O que a Genesis vende aos investidores é que não é “apenas mais um braço robótico com um LLM colado”, mas uma stack completa: modelo, simulação, sensores e até as mãos onde o cérebro vai correr.
Essas mãos são parte crítica da história. A empresa fala em fechar o “fosso de incorporação” entre os dados captados de movimentos humanos e as máquinas que os tentam reproduzir. Para isso desenha mãos hábeis, quase humanas, e usa uma luva de sensores de cerca de 300 dólares para recolher movimentos de trabalhadores, que depois alimentam o treino do modelo. Num mundo em que as condições laborais e a privacidade de dados já são problemáticas em tarefas digitais, esta recolha de gestos físicos levanta outra leva de questões éticas que, por agora, pouco entra nos pitch decks.
Face a rivais como a Skild AI ou a Physical Intelligence, a Genesis tenta diferenciar-se pela abertura, dizendo que pretende abrir o código de partes da sua stack de simulação. Convém algum ceticismo: “open source” em startups de IA costuma vir com asteriscos, licenças restritivas e componentes críticos fechados. Mas a narrativa funciona bem num contexto em que os reguladores europeus olham com desconfiança para caixas negras a comandar máquinas de dezenas de quilos em fábricas ou armazéns.
Se a ronda fechar nos termos falados, a Genesis salta para o mesmo parágrafo de outras cheques XXL em robótica: a londrina Humanoid levantou 152 milhões de dólares numa Série A, a Standard Bots já vale mil milhões com uma ronda de 200 milhões. O subtexto é claro: depois dos chatbots, os grandes fundos querem que o próximo ciclo de crescimento venha de braços e rodas. Para quem vive em Portugal ou na UE, isto ainda soa distante, mas quando metade do capital de risco global decide que general-purpose robots são a próxima fase da automação, a conversa deixa de ser se estes sistemas chegam às fábricas de Aveiro ou Palmela, e passa a ser quando e em que termos.
Fonte: The Next Web
Comentários · 0