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Gboard recolhe mais dados do que parece: estas definições importam

O teclado da Google envia muito mais informação do que a maioria das pessoas imagina. Vale a pena abrir já o menu de Privacidade e desligar alguns interruptores.

Gboard recolhe mais dados do que parece: estas definições importam
Ilustração digital | Pixel Magazine

Um teclado parece inofensivo até lembrar que tudo o que escreves passa por ali. Segundo o Android Police, uma leitura mais atenta do comportamento do Gboard chegou para pôr em causa a quantidade de dados que o teclado da Google recolhe por defeito e como esses dados podem ser ligados a cada utilizador.

O ponto central é simples: o Gboard tem acesso à rede e usa essa ligação para enviar informação de utilização para a Google. Não são, em princípio, cópias literais do que escreves, mas metadados sobre como escreves: em que app estás, quanto tempo passas a teclar, tamanho médio das palavras, idioma usado. Isto alimenta o chamado treino por federated learning (aprendizagem federada), em que o modelo é actualizado no telefone e só envia actualizações matemáticas para os servidores. O problema, como lembra o Android Police citando um estudo académico, é que investigadores conseguiram reconstruir palavras originais a partir dessas actualizações. Deixa de ser apenas “estatística inofensiva”.

Há outro detalhe pouco falado: estas estatísticas podem ser associadas a um Android ID, identificador único do dispositivo que, no limite, se cruza com informação da conta Google. Ou seja, não é apenas “teclado anónimo a escrever num vácuo”. É um padrão de escrita potencialmente atribuível a uma pessoa concreta. Para um componente que vê palavras-passe, IBAN, pesquisas médicas, mensagens privadas e conversas de trabalho, a fasquia devia ser muito mais alta. A recolha agressiva como padrão é uma escolha da empresa, não uma inevitabilidade técnica.

Perante isto, o jornalista do Android Police decidiu abrir as definições do Gboard, entrar em Privacidade e começar a desligar opções. A primeira vítima foi a partilha de estatísticas de utilização, a função que alimenta as métricas de desempenho do teclado. A Google apresenta isto como ajuda para “melhorar o produto”, mas o ganho é difuso para o utilizador e muito concreto para o perfil publicitário da empresa. Desligar esta opção não impede o teclado de funcionar, apenas corta um canal de dados que pouca gente sabia que estava aberto.

Seguiu-se a opção de personalização que permite ao Gboard aprender hábitos de escrita e ditado para afinar sugestões. A empresa garante que essa aprendizagem fica guardada no próprio dispositivo e pode ser apagada nas definições de privacidade. Mesmo assim, quem escreveu a peça preferiu sacrificar um bónus marginal de conveniência para parar de alimentar um modelo que tenta antecipar tudo o que vais escrever. Não é uma posição extrema, é apenas recusar mais um perfil detalhado da tua forma de comunicar. Para quem anda a vasculhar permissões com ferramentas como o App Manager, faz sentido começar logo por onde mais dói.

O caso do Gboard encaixa num padrão mais amplo: apps essenciais tratadas como aspiradores de dados por omissão, com a responsabilidade empurrada para menus de privacidade enterrados em subsecções do Android. É o mesmo reflexo que obriga a ir mexer nas permissões de bateria ou de localização a seguir à instalação, como já se viu na análise à gestão de energia do sistema quando a bateria começa a cair depressa. A diferença é que aqui não se perde autonomia, perde-se controlo sobre o que uma empresa gigantesca aprende sobre a tua escrita. Quem quiser continuar com o Gboard não tem de mudar de teclado amanhã. Mas ignorar o que ele envia para a Google é que deixou de ser opção séria.

Fonte: Android Police

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