DMA dá folga à Google e encosta a Apple à parede na IA móvel
Bruxelas obriga a abrir o Android à concorrência de assistentes de IA, mas oferece três anos de prazo. A Apple não teve a mesma sorte com o novo Siri na Europa.
Bruxelas obriga a abrir o Android à concorrência de assistentes de IA, mas oferece três anos de prazo. A Apple não teve a mesma sorte com o novo Siri na Europa.
A Comissão Europeia decidiu que a Google tem de abrir o Android a assistentes de IA rivais, com acesso às mesmas funções de sistema e dados que hoje alimentam o Gemini. No papel é uma condenação. Na prática, é uma prorrogação confortável para quem já domina o terreno.
A ordem nasce do Digital Markets Act, a lei europeia que tenta domar as chamadas plataformas “gatekeepers”. Bruxelas quer que quem controla o sistema operativo não feche a porta a concorrentes, sobretudo em áreas sensíveis como pesquisa e assistentes digitais. A Google passou anos a resistir a este tipo de acesso, com avisos dramáticos sobre segurança e privacidade, mas agora ganhou algo ainda mais valioso do que um não: tempo.
A empresa tem até julho de 2027 para alinhar o Android com as novas regras. Três anos que lhe permitem continuar a empurrar o Gemini como assistente pré-instalado em milhões de dispositivos, fechar acordos com fabricantes e afinar a integração profunda no sistema. Quando OpenAI, Anthropic ou outro candidato tiverem finalmente uma porta oficial para entrar no Android, a Google já terá mobiliado a casa inteira. É o equivalente regulatório a discutir as regras do jogo quando já se ganha por três golos.
O contraste com a Apple não podia ser mais óbvio. Em vez de lançar primeiro e negociar depois, a Apple preferiu dramatizar a tensão com Bruxelas e anunciou que o novo Siri com IA não chega à Europa por causa do DMA. A Comissão respondeu que as mesmas regras se aplicam: se a Apple quer um Siri turbinado a mandar no iPhone, terá de dar aos assistentes de terceiros acesso comparável a APIs, dados e funcionalidades de sistema. A Apple pediu 18 meses de prazo e uma implementação faseada. Bruxelas disse não.
A diferença de tratamento não é só azar. A Google já passou por este filme com pesquisa, Android e publicidade na UE, sabe como falar a linguagem da Comissão e como empurrar o processo para ganhar almofada. A Apple entrou mais tarde no radar antitrust europeu e parece apostar numa estratégia quase política, de confronto público. O resultado é simples: na prática, o utilizador europeu de Android vai ter Gemini hoje e eventualmente escolha real em 2027. O utilizador de iPhone fica à espera, com a Apple a usar a Europa como palco de pressão, mas sem novo Siri à vista.
Para quem vive na UE, o paradoxo é familiar: a regulação tenta abrir mercados e travar abusos, mas o calendário das decisões acaba por consolidar quem já está à frente. A Google volta a mostrar que percebe o jogo de Bruxelas melhor do que a Apple. E enquanto discutimos interoperabilidade em documentos legais, a próxima geração de assistentes de IA vai sendo treinada, linha a linha, nos telemóveis que já estão no teu bolso.
Fonte: The Verge
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