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Demis Hassabis quer polícia global da IA comandada por Washington

O líder da Google DeepMind defende um regulador mundial para travar modelos de IA perigosos. E quer os EUA no volante, apesar da corrida regulatória da União Europeia.

Demis Hassabis quer polícia global da IA comandada por Washington

Demis Hassabis não está a pedir “mais autorregulação”. Está a pedir um regulador global da IA com poder real para carregar no travão. E quer que seja liderado pelos Estados Unidos.

Num texto publicado no LinkedIn, o CEO da Google DeepMind defende a criação de uma entidade internacional capaz de avaliar os chamados modelos de fronteira antes de serem lançados e de impor um abrandamento coordenado à indústria se o risco for considerado demasiado alto. O modelo que tem em mente lembra estruturas como a FINRA, a associação de supervisão dos mercados financeiros norte-americanos, com especialistas independentes e representantes das comunidades open-source à mesa.

Hassabis escreve que a regulamentação global é urgente à medida que os sistemas de IA se tornam mais sofisticados e arrisca um prazo agressivo para a inteligência artificial geral (AGI): “provavelmente apenas a alguns anos de distância”. Vai mais longe no tom quase messiânico: diz que, daqui a décadas, veremos este momento como “os contrafortes da singularidade”. Quando o discurso começa a soar a manifesto de nova era, convém lembrar que estamos a falar do líder de um dos laboratórios mais poderosos do mundo, não de um académico neutro.

Segundo a Axios, Hassabis anda há meses a fazer lobbying discreto: reuniu com a administração Trump, outros laboratórios de IA e responsáveis europeus, e espera ter a nova organização a funcionar antes do final do ano. Diz que os sinais vindos de Washington são “muito positivos”. Traduzindo: a proposta de polícia global da IA nasce em Silicon Valley, passa pelo governo dos EUA e só depois chega a Bruxelas. Isto num contexto em que a ONU já avisou que a IA corre mais depressa do que as leis e em que a União Europeia foi a primeira a aprovar um quadro legal abrangente para a tecnologia.

Não é a primeira vez que Hassabis se posiciona como voz responsável do setor. Em 2024 ganhou o Nobel da Química pelo trabalho em previsão de estruturas de proteínas com IA e recentemente subscreveu uma declaração a pedir proteções mais duras contra o uso da IA em armas biológicas. Agora junta-se a economistas e figuras como Eric Schmidt e Jack Clark num coro que pede aos governos que levem a sério o impacto económico da IA. A mensagem é clara: os riscos são sistémicos, logo, precisamos de um árbitro acima dos Estados.

O ponto cego está no “liderado pelos EUA”. Para quem está em Portugal ou no resto da Europa, a ideia de um regulador mundial de IA ancorado em Washington é tudo menos neutra. Colide com a aposta europeia numa regulação mais cautelosa e independente e levanta a pergunta que importa: quem vigia o vigilante quando o vigilante é, ao mesmo tempo, o maior mercado, o maior cluster tecnológico e o país com mais interesse em definir as regras a seu favor. Entre o medo da singularidade e o medo de um monopólio regulatório americano, a discussão séria ainda agora começou.

Fonte: The Verge

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