DEF CON proíbe óculos inteligentes da Meta com câmara integrada
A maior conferência de hackers do mundo baniu os Ray‑Ban e afins com gravação de vídeo. Não é medo da tecnologia, é defesa básica da privacidade num ambiente já paranoico por natureza.
A maior conferência de hackers do mundo baniu os Ray‑Ban e afins com gravação de vídeo. Não é medo da tecnologia, é defesa básica da privacidade num ambiente já paranoico por natureza.
Quando até a DEF CON, a conferência de hackers que passa a vida a desmontar limites, decide traçar uma linha no chão, convém prestar atenção. A organização anunciou que vai proibir “óculos estilo Meta com capacidades de gravação” na edição de 2026, em Las Vegas. Nem receitas médicas servem de desculpa: mesmo quem precisa de lentes graduadas vai ter de levar armação analógica.
A posição está alinhada com a política de fotografia do evento, que já desde 2023 exige consentimento explícito de quem aparece em fotos ou vídeos, com exceção dos oradores em palco. A diferença é que, entretanto, chegaram em força os Ray‑Ban e Oakley com câmara integrados, fruto da parceria entre a Meta e a EssilorLuxottica. À distância parecem óculos normais. Só olhando bem para a armação se percebe a câmara embutida. Tecnologia perfeita para quem quer gravar sem que ninguém repare. Péssima para qualquer noção saudável de privacidade.
Eva Galperin, diretora de cibersegurança da EFF (Electronic Frontier Foundation), aplaudiu o anúncio com a expressão que está a pegar: política de “no pervert glasses”. O termo é bruto, mas resume o problema. Estes wearables deixaram de ser brinquedo de geek para se associarem a comportamentos francamente duvidosos. Uma pesquisa rápida por “Meta glasses privacy violations” mostra relatos atrás de relatos, quase sempre de mulheres e menores, a darem conta de gravações não consentidas em espaços públicos.
DEF CON não está sozinha. A promotora britânica Monopoly Events, responsável por Comic Cons no Reino Unido, também baniu estes óculos das suas convenções. Depois de ouvir artistas, agentes e público, concluiu que a presença constante de câmaras escondidas estava a estragar interações e a afastar talento de eventos presenciais. Quem for apanhado a usar óculos com gravação pode ser convidado a sair e perder fotos ou autógrafos pagos. Na Escócia, a operadora de ferries CalMac suspendeu visitas espontâneas às pontes de comando depois de um passageiro com óculos da Meta ter filmado tudo e todos, deixando tripulação e passageiros desconfortáveis.
A ironia é óbvia. A mesma indústria que gasta milhões a vender-nos o sonho do “capturar o momento” fica chocada quando as pessoas não querem ser o momento. Há aqui um atrito real entre conveniência tecnológica e normas sociais que nunca foram pensadas para câmaras invisíveis em cada cara da fila do supermercado. Enquanto a Meta fala em “memórias mãos‑livres”, investigadores já mostraram como é trivial ligar estes óculos a apps banais para identificar desconhecidos em segundos e fazer doxing, cruzando rostos com perfis online. Em contexto europeu, com GDPR e afins, isto é um barril de pólvora regulatório à espera de acender.
Para quem olha para a próxima vaga de óculos inteligentes, incluindo os que a Apple promete centrar na privacidade, como já se anuncia para 2027, a mensagem é clara: sem limites e sinais visuais óbvios de quando há gravação, a aceitação social não passa da porta de entrada. Se até num espaço como a DEF CON, onde se testa a segurança de tudo, se preferem lentes burras a óculos “espertos”, talvez o problema não seja a resistência ao futuro, mas a falta de respeito pelo presente.
Fonte: The Register
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