IA

Claude Fable 5 pode voltar brevemente, após braço-de-ferro com Trump

O modelo de IA mais avançado da Anthropic esteve duas semanas desligado por ordem de Washington. Negociações com o governo dos EUA apontam para reativação em breve, com acesso cada vez mais político.

Claude Fable 5 pode voltar brevemente, após braço-de-ferro com Trump

O Fable 5, o modelo de IA de topo da Anthropic disponível ao público, pode voltar a ficar online já nos próximos dias. A informação vem de fontes internas citadas pela Axios e surge depois de o governo Trump ter apertado os controlos de exportação sobre a família de modelos Mythos, o que na prática obrigou a Anthropic a desligar tudo, inclusive para utilizadores fora dos EUA.

O caso começou mal nasceu o Fable 5, lançado a 12 de junho e logo rodeado de polémica. A Anthropic tinha passado meses a avisar sobre o poder perigoso dos modelos Mythos, quase como uma campanha de “consciencialização” sobre IA de alto risco. Mas a versão vendável, Fable 5, chegou com salvaguardas agressivas e foi recebida como o produto de retalho pensado para gerar receitas antes do IPO da empresa. Resultado: quem não tinha acesso aos Mythos sem travões sentiu-se relegado para uma classe de segunda no acesso a capacidades avançadas de IA.

Essa narrativa rebentou ao fim de três dias. A Casa Branca recebeu relatos de que as salvaguardas do Fable 5 eram relativamente fáceis de contornar, e respondeu com uma diretiva de controlo de exportações que proibia o acesso a modelos Mythos/Fable a quem não fosse cidadão americano. Em termos técnicos, podia ser filtragem de utilizadores. Em termos práticos, a Anthropic achou mais simples desligar os modelos. Para quem usa estas ferramentas na Europa, o recado é claro: o botão on/off não está na Califórnia, está em Washington.

Entretanto, o Secretário do Comércio, Howard Lutnick, já libertou o Mythos 5 das restrições, embora apenas para “parceiros de confiança” e atrás de portas fechadas. A justificação oficial é dupla: mostrar a algumas organizações os perigos cibernéticos de modelos deste tipo, e ao mesmo tempo ajudá-las a reforçar as suas próprias defesas. É a lógica do treino com vírus perigosos num laboratório: acesso altamente controlado, muito longe da lógica de API pública que alimenta startups e produtos que depois chegam a serviços como o Microsoft 365, hoje sob escrutínio regulatório na Europa por causa da camada de IA.

Segundo a Axios, o próximo passo é aplicar o mesmo alívio ao Fable 5. Fontes da administração dizem que o conflito com a Anthropic foi “desanuviado” por Lutnick e pelo Secretário do Tesouro, Scott Bessent. Pelo meio, o CEO Dario Amodei terá sido afastado da linha da frente das negociações, depois de fontes da Casa Branca o descreverem como “esquisito” e pouco recetivo. A nota aqui não é fofoca de personalidade. É a confirmação de que o acesso aos modelos de IA de topo já se negocia quase como um acordo comercial sensível, com diplomacia, egos e substituições de interlocutores.

Para quem olha de Portugal, o episódio sublinha duas coisas. Primeiro, os modelos mais avançados estão a ser desenvolvidos com uma clara camada geopolítica, onde decisões internas dos EUA se traduzem em interruptores globais para empresas e investigadores europeus. Segundo, o próprio discurso de risco está a ser instrumentalizado: a Anthropic exagera perigos para mostrar responsabilidade, depois minimiza-os quando o regulador leva a sério demais, e pelo caminho abre espaço a uma classe restrita de “parceiros de confiança” com acesso privilegiado. Não é bem a democratização da IA que foi vendida nos keynotes.

Fonte: Gizmodo

Newsletter

Os artigos que importam, duas vezes por semana.

Terça e sexta, cinco minutos de leitura. Sem spam, cancelas quando quiseres.

Comentários · 0