Cambridge faz modelo de IA planetário e ignora as GPUs da Nvidia
TESSERA transforma anos de dados dos satélites Sentinel numa impressão digital de cada pedaço de terra. Tudo corrido em GPUs AMD, com dados abertos para quem quiser construir em cima.
TESSERA transforma anos de dados dos satélites Sentinel numa impressão digital de cada pedaço de terra. Tudo corrido em GPUs AMD, com dados abertos para quem quiser construir em cima.
Cada quadradinho de 10 metros de terra no planeta, reduzido a 128 números. É isto que a equipa da Universidade de Cambridge acabou de pôr em cima da mesa com o modelo de IA TESSERA, um modelo de base treinado com anos de imagens dos satélites Sentinel da Agência Espacial Europeia. E fez o trabalho todo em hardware AMD, sem um único GPU Nvidia pelo meio.
Em vez de aprender de texto como um LLM, o TESSERA aprende do espaço. Mastiga imagens de radar e ópticas, comprime a história recente de cada pixel de 10 metros numa “impressão digital” numérica, e deixa esse trabalho pesado feito à partida. A seguir, mapear culturas, florestas, cheias ou construção passa a ser um problema muito mais pequeno: em vez de treinar modelos gigantes a partir de imagens em bruto, usas estas impressões digitais e precisas de, segundo a equipa, até 30 vezes menos dados anotados. Em muitos casos chega um CPU decente, não precisas de um rack de GPUs.
O lado técnico também é um recado à indústria. Cambridge treinou o TESSERA em 16 GPUs AMD Instinct MI300X, com cerca de 6.200 horas de GPU, usando o ROCm, o stack de software aberto da AMD. Nada de CUDA, nada de Nvidia. Para correr o modelo no planeta inteiro, a equipa recorreu à Vultr, um fornecedor de cloud independente que forneceu seis servidores bare-metal, cada um com oito GPUs AMD Instinct MI325X. Em conjunto debitam cerca de 3 TB de dados comprimidos por dia, o equivalente a cobrir diariamente a área terrestre de Itália. Um ano de cobertura global demora meses de processamento contínuo.
Num mercado em que a Nvidia quer ser dona do centro de dados de IA de uma ponta à outra, como já analisámos no caso da plataforma Vera Rubin, ver um projecto de escala planetária montar-se em cima de AMD e software aberto não é um pormenor. Prova que a dependência de CUDA é mais política e de inércia do que técnica. Claro que a maioria dos laboratórios vai continuar a usar Nvidia porque é o caminho com menos fricção, mas TESSERA mostra que quem quiser sair da auto-estrada tem alternativa viável.
O outro ponto crítico é a abertura. Cambridge está a libertar as embeddings gratuitamente sob licença Creative Commons, com a receita de treino completa publicada. Qualquer governo, ONG ou startup pode pegar nestas impressões digitais de 10 metros e construir serviços por cima. Falamos de coisas muito concretas: monitorizar a saúde de culturas e prever colheitas para pequenos agricultores, seguir desflorestação quase em tempo real, detectar ocupação ilegal de solos, ou vigiar riscos de cheias e deslizamentos. Em vez de cada país pagar a consultoras para reinventarem a roda em modo fechado, há aqui um “layer” comum que países com menos recursos podem adoptar.
Para quem está em Portugal, isto não é ficção científica. Num país com ciclos de seca, incêndios recorrentes e uma faixa costeira vulnerável à subida do mar, modelos deste tipo podiam alimentar sistemas públicos de alerta e planeamento com uma granularidade que hoje só existe em relatórios caros e pontuais. A parte menos romântica é que dados abertos não significam automaticamente políticas inteligentes. Mas tiram uma desculpa clássica de cima da mesa: a de que falta capacidade técnica para ver o que está a acontecer no território em tempo quase real.
TESSERA é ao mesmo tempo um mapa detalhado do planeta e um pequeno abanão no monopólio de facto da Nvidia na IA. Se mais equipas seguirem este modelo de hardware alternativo e dados abertos, a conversa sobre infra-estrutura de IA pode começar a deslocar-se de quem vende as placas para quem realmente usa a inteligência artificial para perceber o mundo físico.
Fonte: The Next Web
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