ByteDance pede 27 mil milhões para IA e paga menos ao banco
A dona do TikTok acaba de fechar o segundo maior empréstimo em dólares da Ásia este ano. Dinheiro barato para data centers e chips, num mercado de crédito que anda morno.
A dona do TikTok acaba de fechar o segundo maior empréstimo em dólares da Ásia este ano. Dinheiro barato para data centers e chips, num mercado de crédito que anda morno.
Num ano em que a banca anda a contar tostões, a ByteDance acaba de sacar um empréstimo em dólares de $29,6 mil milhões, cerca de 27 mil milhões de euros, e ainda por cima a um preço mais baixo do que pagou em 2024. É o segundo maior empréstimo corporativo em dólares da Ásia este ano, só atrás dos $40 mil milhões da SoftBank, e é três vezes o que a dona do TikTok tinha ido buscar offshore há dois anos.
O apetite foi tal que os bancos encheram o livro com mais de $30 mil milhões em ordens para uma linha que começou em $20 mil milhões. Citigroup e JPMorgan coordenam o negócio, com prazo de três anos e opção de estender a cinco, ainda em fase de alocação final. O ponto sensível é o preço: a ByteDance arranca a pagar uma margem de 68 pontos base sobre a SOFR (Secured Overnight Financing Rate), abaixo dos 85 pontos base do último empréstimo. Em bom português, pediu muito mais dinheiro e a banca aceitou ganhar menos no spread.
Isto acontece num mercado asiático de crédito lento, com menos negócios e margens sob pressão. A exceção é justamente quem está a gastar fortunas em IA. Em 2024, a ByteDance tinha levantado $10,8 mil milhões junto de cerca de 20 bancos. Em junho falava-se num alvo de $20 mil milhões. O acordo final passa esse número em quase metade. Quando um único mutuário sobe assim a fasquia em dois anos e ainda assim só consegue o segundo lugar do ranking, não é só a empresa que mudou, é o nível de fogo-de-artifício financeiro que a IA está a puxar.
Oficialmente, o dinheiro serve para “fins corporativos gerais”. Na prática, lê-se: data centers e infraestrutura de IA. A ByteDance está a ponderar gastar até $70 mil milhões por ano em capex de IA, o que a colocaria na mesma liga de investimento dos chamados hyperscalers americanos, como Microsoft, Google ou Amazon. Para uma empresa chinesa constantemente debaixo de escrutínio regulatório nos EUA e na Europa, esta escala é também uma forma de sinalizar aos mercados que não vai ficar dependente da infraestrutura de ninguém.
O problema é que tem de o fazer com pesos nos tornozelos. Os controlos de exportação dos EUA limitam-lhe o acesso às GPUs mais avançadas da Nvidia, as que estão a alimentar grande parte dos modelos de IA generativa no Ocidente. Resultado: a ByteDance é empurrada para um cocktail mais caro e menos eficiente, com silício próprio em Arm e RISC-V, chips de inferência da Qualcomm e fornecedores chineses domésticos. O mesmo poder de computação acaba por custar mais, o que explica parte desta fome de dívida barata.
Para agravar, uma parte do orçamento de IA vai parar a um rival directo. A ByteDance tem pago mais de $1 mil milhão por ano para usar modelos da OpenAI via Microsoft Azure, ao mesmo tempo que financia o hardware que um dia deverá tornar essa dependência desnecessária. Do outro lado do tabuleiro, a SoftBank também se endividou em $40 mil milhões para sustentar a sua relação com a OpenAI. As duas operações, que agora emolduram o mercado asiático de dívida para IA, deixam uma mensagem clara: quem controla capital barato e chips controla o ritmo da corrida. O utilizador europeu do TikTok pode achar que está só a ver vídeos, mas por trás de cada scroll há uma guerra de dívida, silício e geopolítica a aquecer.
Fonte: The Next Web
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