CIêNCIA

BrainCo quer pôr a leitura do teu cérebro numa simples fita de cabeça

Enquanto a Neuralink fura crânios, a chinesa BrainCo aposta em interfaces cérebro-computador que se vestem. Menos risco clínico, muito mais margem para abuso em massa.

BrainCo quer pôr a leitura do teu cérebro numa simples fita de cabeça

A corrida aos interfaces cérebro-computador não se faz só com robots cirúrgicos a entrar pelo crânio. Na China, a BrainCo, sediada em Hangzhou, está a apostar que o futuro da neurotecnologia cabe numa fita de cabeça. Nada de bloco operatório, só elétrodos na pele e muitos dados neurais a circular.

A empresa, saída dos Harvard Innovation Labs em 2015 e hoje um dos “seis pequenos dragões” de Hangzhou, construiu um portefólio que vai da medicina ao consumo. No lado clínico tem talvez o produto mais sólido: mãos robóticas que interpretam sinais neurais e musculares de amputados e os transformam em movimentos de dedos. Já têm aprovação da FDA norte-americana, o que, no meio da selva neurotech, é mais do que um slide bonito em apresentação a investidores.

A partir daí, a BrainCo desce rapidamente para o mercado de massas. As suas headbands e toucas leem atividade elétrica através do couro cabeludo. Entre os dispositivos está um “auxiliar de sono” que dispara impulsos elétricos de baixa intensidade, supostamente para mexer com neuroquímicos associados ao stress. A estratégia é transparente: provar a tecnologia onde o benefício médico é difícil de contestar, depois reciclar os sensores em gadgets “de bem-estar” para qualquer um. Em termos de escala, é mais fácil vender uma fita de cabeça online do que convencer alguém a aceitar elétrodos implantados à Neuralink.

O contraste filosófico e financeiro é claro. De um lado, a Neuralink de Elon Musk e rivais como a Paradromics apostam em implantes que pousam diretamente no tecido cerebral, com sinais mais ricos mas riscos clínicos e éticos muito mais altos. Do outro, a China financia em paralelo tanto o invasivo como o não invasivo, com sete ministérios a empurrar um plano nacional para BCI (brain-computer interfaces) até 2027. O resultado é um mercado doméstico em que cerca de 82% dos dispositivos cérebro-computador ainda são não invasivos, e onde a BrainCo já levantou cerca de 2 mil milhões de yuan, perto de 260 milhões de euros, preparando-se para entrar em bolsa em Hong Kong.

É aqui que a história deixa de ser apenas curiosa e passa a ser desconfortável. Um chip no cérebro exige cirurgia, consentimento informado e camadas de regulação. Uma fita de cabeça precisa de muito menos fricção. Dá para a pôr numa sala de aula inteira, num escritório, num centro de treinos, sem grande cerimónia. A BrainCo já percebeu o risco na pele: em 2019, as suas headbands Focus foram usadas numa escola primária em Zhejiang para medir a “atenção” dos alunos em tempo real e mostrar pontuações aos professores. A reação pública foi forte o suficiente para o departamento de educação local mandar parar o ensaio.

Para quem olha de Portugal, o caso parece distante, mas a lógica é familiar. Já discutimos o que significa ter óculos com câmara e IA sempre a gravar, agora junta-se a isso a leitura de sinais cerebrais. Os dados neurais são provavelmente o nível máximo de intimidade digital. São difíceis de anonimizar e fáceis de reidentificar se combinados com outros registos biométricos. E os sistemas mais simples de pôr em qualquer cabeça são precisamente os que podem ser empurrados para contextos onde o “aceita e usa” vale mais do que um verdadeiro consentimento. A discussão sobre privacidade cerebral e direitos neurais ainda está nos papers académicos e em meia dúzia de reguladores atentos. A BrainCo e os seus concorrentes mostram que devia estar, há muito, nos regulamentos das escolas, das empresas e das autoridades de proteção de dados.

Fonte: The Next Web

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