BepiColombo larga o motor e entra na recta final para Mercúrio
Depois de quase oito anos em cruzeiro, a missão europeia-japonesa separou o módulo de transferência. Segue-se a inserção em órbita e o verdadeiro trabalho científico.
Depois de quase oito anos em cruzeiro, a missão europeia-japonesa separou o módulo de transferência. Segue-se a inserção em órbita e o verdadeiro trabalho científico.
Depois de quase oito anos em viagem, a sonda BepiColombo da ESA e da JAXA começou finalmente a fase de chegada a Mercúrio. A 3 de setembro, por volta das 14h CEST (13h em Lisboa), o conjunto principal separou-se do Mercury Transfer Module, o módulo de propulsão solar que a trouxe desde 2018 até às vizinhanças do planeta mais próximo do Sol.
Foram precisos alguns minutos de tensão até os controladores confirmarem, via sinal Doppler preliminar, que a separação tinha corrido bem. Às 15h52 CEST chegava a confirmação completa: as antenas no solo detectaram o sinal esperado e os painéis solares do Mercury Planetary Orbiter estavam a carregar as baterias. É o momento em que o “camion” espacial que fez o trabalho pesado se afasta e fica em cena apenas o duo científico que realmente interessa.
A coreografia agora é apertada. A entrada em órbita de Mercúrio está marcada para 21 de novembro. Só depois disso o Mercury Magnetospheric Orbiter, também chamado Mio e construído pela JAXA, será libertado algures entre 9 e 10 de dezembro. Uma semana mais tarde o MPO começa a descer para a sua órbita final, uma elipse de cerca de 480 x 1.500 km. A ciência a sério só arranca em abril de 2027, o que diz muito sobre a escala de tempo em que estas missões operam, especialmente quando comparadas com ciclos anuais de gadgets e apps.
Esta chegada está um ano atrasada. O plano original apontava para dezembro de 2025, mas problemas no sistema de propulsão solar eléctrica, o SEP (Solar Electric Propulsion), obrigaram a redesenhar a trajectória. Resultado, mais um ano de cruzeiro, mais consumos a gerir, mais risco acumulado. Mesmo assim, BepiColombo já conhece bem Mercúrio, com seis sobrevoos desde 2021, além de visitas de gravidade a Vénus e à Terra. Isto não é turismo espacial, é navegação orbital de alta precisão e com orçamento público europeu em cima da mesa.
O hardware é um bom retrato da cooperação internacional, sem o ruído político habitual. O MPO e o MTM são contributos da ESA, o MMO/Mio vem da JAXA. A agência europeia forneceu ainda o escudo térmico que protegeu o satélite japonês durante a viagem, escudo que será descartado depois da separação. O MPO é o “irmão mais velho” desta família, com um corpo principal de 2,4 x 2,2 x 1,7 m e 1.230 kg de massa, incluindo 85 kg de carga científica. O Mio mede 1,8 m de diâmetro, 1,1 m de altura e pesa 255 kg, com 45 kg reservados a instrumentos. Um é estabilizado em três eixos, sempre a olhar para nadir, o outro roda a 15 rpm com o eixo a 90 graus do Sol, uma opção que simplifica a estabilidade térmica e magnética.
O objectivo é ambicioso: estudar Mercúrio da magnetosfera ao núcleo, passando pela interacção com o vento solar e a origem do seu campo magnético. A missão nominal dura um ano terrestre, cerca de quatro anos mercurianos, com hipótese de extensão por mais um ano. Olhando para como a NASA prepara o helicóptero Dragonfly para explorar Titã ou para os planos de telecomunicações em Marte, a BepiColombo mostra uma Europa menos barulhenta mas tecnicamente sólida. Se a política espacial europeia tivesse a mesma consistência que estas órbitas calculadas ao quilómetro, provavelmente não andávamos sempre a pedir boleia aos outros.
Fonte: The Register
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