Entre Samsung e Google fala-se muito de câmaras, processadores e anos de atualizações. Mas há um detalhe escondido nas letras pequenas que interessa tanto ou mais a quem dá uso intenso ao telemóvel: a vida útil da bateria.
Na documentação de suporte da Google, acessível a partir de um Pixel 11 Pro, a empresa indica que os Pixel 3 até ao Pixel 8 Pro e o primeiro Pixel Fold foram desenhados para reter até 80% da capacidade da bateria durante cerca de 800 ciclos de carga completos. Os Pixel 8a e modelos seguintes sobem esse objetivo para 1.000 ciclos. É um número que alinha com o que muitos fabricantes assumem hoje, mas não conta a história toda.
Do lado da Samsung, alguns modelos recentes têm uma meta muito mais ambiciosa: até 2.000 ciclos até a bateria descer aos mesmos 80% de capacidade. Esta informação não aparece em campanhas publicitárias, mas surge nas fichas técnicas exigidas na União Europeia por causa das regras de transparência sobre durabilidade e reparabilidade. Segundo a lista que o MakeUseOf reuniu, a promessa dos 2.000 ciclos abrange os Galaxy S25, S25 Ultra, S25 FE, S25 Edge, S25 Plus, Galaxy A56, A36, os dobráveis Galaxy Z Flip 7 e Z Fold 7, e ainda os robustos Galaxy XCover 7 e XCover 7 Pro. O Galaxy Z Flip 7 FE fica num meio-termo com 1.700 ciclos.
Convém sublinhar que isto não é a regra em toda a gama Samsung. A maior parte dos restantes modelos, incluindo a geração Galaxy S26, aparece classificada com cerca de 1.200 ciclos até aos 80%. Mesmo assim, continua a ser mais do que os 1.000 ciclos que a Google assume para os Pixel mais recentes. Para quem joga muito, usa dados móveis e recarrega quase todos os dias, a diferença somada em anos não é pouca.
O conceito de ciclo de carga também merece contexto. Um ciclo não é cada vez que ligas o cabo, é aproximadamente o equivalente a descarregar 100% e voltar a encher, mesmo que seja repartido. Por exemplo, dois dias em que baixas de 100% para 50% e voltas aos 100% contam em conjunto como um ciclo. Quando um fabricante promete 1.000 ou 2.000 ciclos até aos 80%, está a dizer que espera que, passado esse número de ciclos acumulados, a bateria ainda retenha cerca de 80% da capacidade inicial. Não é o momento em que o telemóvel “morre”, é o momento em que notas que já não aguenta o dia como antes.
Feitas as contas, se alguém descarrega e recarrega o equivalente a um ciclo completo por dia, 1.000 ciclos dão grosso modo para quase três anos antes da bateria cair para os 80%. Com 2.000 ciclos, fala-se de cinco a seis anos de uso nesse ritmo. Na prática haverá variações: temperaturas extremas, carregadores duvidosos, deixar o telemóvel sempre até aos 100% ou ficar muitas horas a 0% podem encurtar esse horizonte. Mas a diferença de base entre 1.000 e 2.000 ciclos continua demasiado grande para ser ignorada.
É aqui que a conversa sobre longevidade devia mudar. Nos últimos anos, tanto Google como Samsung enfatizaram os anos de software e segurança: ciclos de atualizações longos são bem-vindos, mas pouco valem se o utilizador estiver a lutar com uma bateria cansada ao fim de dois ou três anos. A Samsung, ao certificar alguns modelos para o dobro dos ciclos, encaixa melhor com a narrativa de manter o telemóvel mais tempo. A Google, que se posiciona como campeã da sustentabilidade, fica mal comparada com estes números.
Há formas de aliviar a pressão sobre qualquer bateria, seja Samsung ou Pixel: reduzir brilho, limitar apps em segundo plano, controlar localizações sempre ativas e desligar algumas opções de ligaduras noturnas ajuda, como já explicámos em detalhe em como travar a fuga de bateria à noite no Android. Mas estas são afinações de utilização. Não mudam o limite físico de ciclos para que a bateria se mantenha perto da capacidade original.
Ao mesmo tempo, o regresso tímido de baterias amovíveis e a pressão regulatória europeia para facilitar trocas de bateria mostram que os reguladores estão a empurrar o mercado nessa direção. Uma coisa é substituir a bateria ao fim de quatro ou cinco anos porque o telemóvel ainda faz sentido. Outra é ter de o fazer ao fim de dois, quando o preço de compra já passou bem os 1.000€.
No fim, quem escolhe um topo de gama hoje devia olhar para mais do que o número de miliamperes-hora e a promessa de “um dia inteiro de autonomia”. Entre 1.000 e 2.000 ciclos certificados vai a diferença entre trocar de telemóvel assim que a bateria começa a ceder ou aguentar mais um par de anos sem dramas. Se a Google quer convencer que os Pixel são feitos para durar, vai ter de alinhar estes números com o discurso.
Fonte: MakeUseOf
Comentários · 0