Atlas 1.0 promete ler o teu cérebro atrás da orelha
Um EEG portátil em forma de disco cola-se atrás da orelha, envia dados para o telemóvel e traduz o teu dia em três métricas mentais. Entre ciência, autoajuda e subscrição mensal.
Um EEG portátil em forma de disco cola-se atrás da orelha, envia dados para o telemóvel e traduz o teu dia em três métricas mentais. Entre ciência, autoajuda e subscrição mensal.
O Atlas 1.0 é daqueles gadgets que parecem ter fugido de um laboratório de neurociência para o feed do Instagram. É um pequeno disco preto ou branco, recarregável, que se cola atrás da orelha e funciona como um EEG portátil, em vez dos capacetes cheios de fios que associamos a exames hospitalares.
A ideia da startup Atlas é simples na forma e ambiciosa no conteúdo: fazer com o cérebro o que as pulseiras fazem com os passos. O dispositivo regista atividade elétrica cerebral num electroencefalograma (EEG), mede também atividade electrodérmica, movimento da cabeça e um vago “speaking activity” baseado em padrões de voz, sem analisar o conteúdo do que dizes. Tudo isto é processado numa app de smartphone que tenta traduzir sinais biológicos em algo que uma pessoa normal consiga ler sem ter feito um doutoramento em neurociência.
Em vez de te afogar em gráficos de ondas, a app reduz tudo a três métricas em tempo real: Presence, Stress e Energy Burn. Presence tenta dizer se a tua atenção está virada para dentro ou para fora, se estiveste mesmo presente naquela conversa ou em modo piloto automático. Stress mede o nível de stress psicológico atual. Energy Burn é uma espécie de orçamento de recursos mentais, quanto “combustível” cognitivo estás a gastar. O Atlas 1.0 pode enviar alertas quando há alterações bruscas e pede-te contexto, desde acesso ao calendário a registos de treinos ou etiquetas manuais de períodos do dia.
Em teoria, quanto mais dados lhe deres, melhor o sistema aprende quando pensas e sentes “melhor”. Na prática, há muitos “ses”: a empresa admite que esta primeira série Pioneer Edition é limitada e claramente orientada para entusiastas. O preço também filtra curiosos casuais, estamos a falar de 499$, cerca de ~460€, mais uma mensalidade de 30$ (~28€) para as funcionalidades de software e recargas das bases adesivas. É o pacote completo da nova geração de wearables de saúde mental: hardware caro, subscrição e uma promessa de autoconhecimento. Tudo isto num cenário em que até relógios que medem stress pelo ritmo cardíaco continuam a ser, no máximo, palpites educados.
A diferença é que o Atlas tenta ir à origem, o cérebro, em vez de olhar só para o corpo. Isso não significa automaticamente melhor ciência. Medir EEG em movimento, no “mundo real”, é um problema difícil, com ruído de todos os lados. O aparelho pode acabar mais próximo de um espelho de humor avançado do que de um dispositivo médico. Ainda assim, encaixa numa tendência mais ampla de tecnologia de saúde a tentar sair do hospital para o dia a dia, a mesma lógica que vimos quando falámos de IA a ler um ECG em segundos.
Para quem vive na Europa, não há por agora detalhes claros de lançamento, certificações médicas ou compatibilidade com normas como o RGPD. Mesmo que chegue às lojas online, há outra questão menos técnica e mais íntima: quão confortável estás em pôr literalmente a tua atividade cerebral numa app com mensalidade. O Atlas 1.0 quer ser o Fitbit do cérebro. Convencer alguém a colar um “disco” atrás da orelha todos os dias é uma coisa. Convencer que as leituras significam mesmo aquilo que a app diz já é outra conversa.
Fonte: Gizmodo
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