A IA entrou oficialmente na categoria de “alvo de alto valor”. Não só está a ser usada para automatizar ataques, como as próprias infraestruturas de IA passaram a estar no centro da mira, segundo o novo Threat Hunting Report da CrowdStrike. A empresa fala em crescimento de 89 por cento na atividade assistida por máquinas em 2025 e nota que a janela prática para corrigir vulnerabilidades encolheu para cerca de 48 horas antes de alguém as tentar explorar.
O relatório descreve grupos criminosos e equipas ligadas a estados a usar IA em toda a cadeia de ataque. Desde o reconhecimento até à movimentação lateral, passando pela criação de phishing e de código malicioso. E, em paralelo, a atacar diretamente APIs de modelos avançados, pipelines de CI/CD e infraestruturas de agentes de IA. Conceitos como LLMjacking, roubo de credenciais para abusar de APIs de modelos grandes de linguagem, e cost harvesting, em que o atacante infla de forma artificial o consumo de IA para estourar o orçamento da vítima, já deixaram de ser teoria. A CrowdStrike cita um caso em que um ladrão de tokens conseguiu disparar cerca de 200.000 pedidos de API em dois minutos.
Internamente, a equipa de threat hunting da CrowdStrike diz estar a seguir “leads” disparados por agentes de IA a um ritmo 2,5 vezes superior aos gatilhos humanos. Não é só spam mais rápido. É escala industrial de tentativas automatizadas, quer em campanhas financeiras, quer em operações apoiadas por governos. A mesma IA que usamos para procurar falhas, como já discutimos quando analisámos como a IA descobre milhares de vulnerabilidades que quase ninguém aproveita, está a ser ligada ao lado ofensivo com muito menos hesitação.
No meio desta fauna, um nome sobressai no relatório: Famous Chollima, uma célula norte-coreana associada ao já conhecido Lazarus Group. Segundo a CrowdStrike, foi este grupo que demonstrou o uso “mais avançado” de IA na segunda metade de 2025 e primeira de 2026. Criaram empresas inteiras falsas com sites gerados por IA, repositórios no GitHub e infraestrutura de email, tudo montado para operações de ameaça interna. A segunda técnica mais comum no catálogo MITRE ATLAS (Adversarial Threat Landscape for Artificial-Intelligence Systems) foi precisamente a sabotagem da cadeia de fornecimento de IA, com repositórios trojanizados para ambientes de desenvolvimento focados em IA.
Um exemplo descrito no relatório passou por ataques a empresas de criptomoedas e blockchain, no início de 2026. Repositórios aparentemente legítimos em GitHub incluíam ficheiros de projeto normais e scripts maliciosos escondidos. Bastava um programador clonar e abrir o projeto para os scripts correrem comandos que davam a Famous Chollima acesso ao ambiente de desenvolvimento. Aqui a nuance é crítica: não é só mais um roubo via open source, é uma entrada direta nos pipelines que treinam e integram sistemas de IA. Como o próprio Adam Meyers, vice-presidente sénior da CrowdStrike, sublinha, “as IAs estão a ser alvo através dessa cadeia de fornecimento e dos pipelines CI/CD de que dependem”.
Para quem gere equipas de segurança em Portugal, isto traduz-se em menos tempo de reação e em mais superfície de ataque, sem aumento proporcional de orçamento ou de pessoas. Automatizar defesa com IA deixa de ser opcional se o lado de lá já está em modo 2,5x, mas essa automação vem com contas para pagar, riscos legais e novas formas de abuso, como já detalhámos ao olhar para quem paga quando os agentes de IA começam a fazer hacking a sério. A IA passou de ferramenta a terreno de batalha, e continuar a tratá-la como “caixa negra que alguém na cloud gere por nós” é a forma mais rápida de entrar na próxima estatística da CrowdStrike.
Fonte: The Register
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