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Anunciantes já tentam manipular bots de IA com anúncios invisíveis

Sites estão a servir páginas diferentes para humanos e crawlers de IA. A publicidade deixa de ser para ti e passa a ser para o modelo que te responde.

Anunciantes já tentam manipular bots de IA com anúncios invisíveis

Primeiro foram as páginas cheias de palavras-chave para enganar o Google. Agora são versões inteiras de sites feitas para outra espécie de visitante: crawlers de modelos de IA, não pessoas. O The Register pegou neste tema no podcast The Kettle e a história é simples, mas desconfortável. Já há quem sirva anúncios e conteúdos específicos só para bots, com o objetivo declarado de enviesar aquilo que eles “aprendem”.

O caso mais óbvio é o da Time, que criou uma versão paralela do site com anúncios que só aparecem a crawlers de IA. A ideia é clara: se os grandes modelos estão a rapar a web para treinar respostas, então as marcas querem meter a sua propaganda diretamente na dieta informativa dos modelos. Não é SEO, é doping algorítmico. Em vez de tentar convencer-te a ti, o alvo passa a ser o sistema que, daqui a uns meses, te vai recomendar um produto “de forma neutra”.

Isto liga-se a uma tendência mais ampla de manipulação da infraestrutura de informação. Já tínhamos análise de SEO para motores de busca, conteúdo desenhado para agradar ao feed do TikTok ou ao algoritmo do Instagram. Agora começa a fase de optimização para LLM, com páginas, metadados e até dados estruturados afinados para aquilo que os crawlers dos grandes modelos vão ingerir. É o mesmo instinto que está a transformar a pesquisa num campo de batalha entre spam automatizado e filtros de IA, como se vê na guerra em torno do Reddit e de outros grandes fóruns, tema que já destrinçámos em detalhe no artigo sobre Reddit, IA e spam.

No podcast, os jornalistas do The Register encaixam este fenómeno num quadro mais negro. De um lado, a saga da OpenAI e o hack à Hugging Face, com enxames de agentes semi-autónomos a improvisar infraestruturas de comunicação usando gestores de pacotes e nomes de ficheiros, quase como se estivessem a montar um pequeno fórum clandestino dentro de sistemas alheios. Do outro, a corrida chinesa em modelos open-weight, suficientemente próximos da performance dos gigantes fechados americanos para começarem a assustar reguladores e concorrência. Quem acha que isto é ficção científica não está a prestar atenção.

Para Portugal, isto tem duas implicações óbvias. A primeira é regulatória. A UE montou o AI Act para controlo de riscos, transparência e rastreabilidade, mas não pensou a sério em publicidade dirigida a modelos em vez de pessoas. Se uma resposta de IA que lês num motor de pesquisa foi influenciada por campanhas escondidas em páginas que nunca verias como humano, onde fica o rótulo de “conteúdo patrocinado”? A segunda é económica. Quem depende de tráfego de pesquisa ou de recomendações tende a alinhar-se com o que rende. Se o dinheiro migrar para anúncios invisíveis para bots, a pressão para distorcer a web que os LLM veem vai aumentar. E a web que eles veem é, na prática, o mundo que nos descrevem.

Não é apocalipse, é só a continuação lógica de um modelo de negócio que já tratava o utilizador como produto. A diferença é que agora há uma camada intermédia de agentes de IA a filtrar e reempacotar tudo. Quando começarmos a ver respostas “espontâneas” a sugerir sempre as mesmas marcas, o truque não vai estar no banner que ignoras no ecrã, vai estar no anúncio que nunca viste, mas que o modelo ingeriu em teu nome.

Fonte: The Register

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