Amazon prepara chips próprios para Kindle, Fire TV e resto da família
A gigante quer fazer como a Apple: controlar o cérebro dos seus gadgets, cortar custos e amarrar melhor o hardware à IA. A indústria dos chips que se cuide.
A gigante quer fazer como a Apple: controlar o cérebro dos seus gadgets, cortar custos e amarrar melhor o hardware à IA. A indústria dos chips que se cuide.
A Amazon está a preparar-se para deixar de viver à conta de chips genéricos em muitos dos seus gadgets. Segundo o analista Ming-Chi Kuo, a empresa quer passar a desenhar processadores próprios para Kindle, Fire TV, colunas Echo, campainhas Ring e companhia. Menos dependência de fornecedores como a MediaTek, mais controlo sobre aquilo que realmente manda em qualquer dispositivo: o silício.
O movimento não aparece no vazio. Apple fez o mesmo com os A e M, a Google montou a família Tensor. O modelo está testado: quem controla o chip controla a autonomia, o desempenho, o ritmo de novas funções e a forma como a IA entra em cena. No caso da Amazon, há ainda um detalhe importante, tem gasto rios de dinheiro em infraestruturas de IA na nuvem e precisa de compensar em algum lado. Cortar margens pagas a terceiros em chips de baixo e médio custo é uma forma discreta de equilibrar contas sem subir preços de imediato.
Segundo Kuo, a Amazon escolheu a taiwanesa Alchip como parceira exclusiva para o desenho de back-end e testes destes processadores. A estratégia é típica das big tech: controlo da arquitetura e da direção do produto fica em casa, a engenharia pesada de implementação é feita por um especialista externo. O objetivo será começar a transição em 2027 e, quando a máquina estiver oleada, enviar para o mercado cerca de 40 milhões de chips próprios por ano. Não é um capricho de laboratório, é volume sério, alinhado com o que a Amazon vende em sticks de streaming, leitores de ebooks e gadgets de casa inteligente.
Para quem usa um Kindle ou um Fire TV em Portugal, isto não significa que em 2027 o ecrã vá virar OLED por magia ou que o Fire Stick vá bater uma consola. A diferença tende a ser mais subtil: melhor gestão de energia nos Kindle de gama baixa, Fire TV mais afinado para streaming com menos soluços, Echo e Ring com hardware pensado de raiz para correr modelos de IA localmente em vez de depender sempre da nuvem. A Apple tem usado o seu Neural Engine como trunfo, e já se fala em chips M focados em IA. A Amazon claramente não quer ficar na fila de trás.
Do outro lado, os fornecedores tradicionais sentem o aperto. O analista Jukan, a comentar os dados de Kuo, nota que empresas como a MediaTek podem perder um cliente de dezenas de milhões de unidades. O padrão repete-se em toda a indústria: quem tem escala foge do catálogo standard e constrói à medida, quem não tem escala fica a lutar por restos de mercado e margens mais baixas. Para a Amazon, o risco é outro, desenhar chips próprios amarra ainda mais toda a linha de hardware a decisões internas. Se a estratégia correr bem, ganha um ecossistema de gadgets mais coerente e barato de produzir. Se correr mal, fica com milhões de dispositivos presos a um erro de arquitetura difícil de corrigir com uma simples atualização de software.
No papel, a jogada faz sentido: IA em todo o lado, controlo de custos, dependência menor de terceiros e um caminho que outros gigantes já provaram ser viável. A parte que falta é aquela que a Amazon historicamente trata como secundária, qualidade e longevidade do hardware de consumo. Quando o chip passa a ser “da casa”, a desculpa de que o fornecedor não deixou fazer melhor deixa de colar.
Fonte: Android Authority
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