Alibaba Cloud troca chips ocidentais por casa para engordar margens de IA
A cloud da Alibaba já ganha bem com IA generativa. Agora quer cortar ainda mais a fatura Nvidia e companhia com chips próprios e ciclos de amortização absurdamente curtos.
A cloud da Alibaba já ganha bem com IA generativa. Agora quer cortar ainda mais a fatura Nvidia e companhia com chips próprios e ciclos de amortização absurdamente curtos.
Os números da Alibaba Cloud mostram o que muita gente na indústria já suspeitava: a margem em serviços de IA é tão gorda que o maior problema não é vender, é arranjar chips. E a Alibaba decidiu que depender de Nvidia e afins sai caro demais, financeiramente e politicamente.
Na chamada de resultados, o CFO Toby Xu explicou que a empresa corre os seus servidores durante cinco anos. Hoje, os servidores de IA pagam-se em três, o que significa dois anos de fluxo de caixa “limpo”. O CEO Eddie Wu foi mais longe e lembrou que máquinas compradas em 2018 e 2020, ainda com GPUs Nvidia V100 e A100, continuam usadas quase a 100 por cento. Quando hardware de oito anos continua cheio e já foi mais do que amortizado, percebes porque é que a corrida à IA está a deitar dinheiro para o lado dos grandes clouds.
A Alibaba acha que consegue encurtar o payback para 2,5 anos graças a margens crescentes em IA. A chave é simples e nada romântica: usar mais chips próprios e menos ocidentais. Wu chamou-lhes “direção importante e de longo prazo” e deixou claro que, à medida que a capacidade de produção aumenta, a proporção de chips internos nos data centers vai subir, substituindo “chips comerciais”. Traduzindo: menos Nvidia, AMD ou Intel, mais silício desenhado em Hangzhou, fora do alcance direto de controlos de exportação e de guerras de preço.
O mais curioso é que isto já não é só para consumo interno. Mais de 650 clientes externos escolheram instâncias da cloud baseadas em chips da própria Alibaba. É pouco face aos mais de 120.000 clientes que a AWS gaba ter nos seus Graviton, mas mostra que o caminho cloud + chip próprio deixou de ser excentricidade da Amazon. Baidu, Tencent e até players ocidentais fora do top três estão a ensaiar a mesma receita. É a continuação lógica do que vemos em apostas como o Dubhe-100 em RISC-V para servidores de IA: menos dependência de CPUs e GPUs de catálogo.
Convém notar que isto não é feito à custa de investimento, pelo contrário. No primeiro trimestre, a Alibaba despejou 10 mil milhões de dólares em infraestrutura, mais 75 por cento do que no período homólogo. Justifica o salto com “flutuações de ciclos de compra”, mais capacidade de CPU para a esperada adoção de agentes de IA e chips mais caros em geral. Quando o CEO diz que a IA é “o motor de crescimento mais certo” da empresa, está a assumir, na prática, que o negócio original de e-commerce já não chega. Cresceu só 4 por cento para 30,34 mil milhões de dólares, enquanto a área de IA da cloud subiu 45 por cento para 7,14 mil milhões.
Para Portugal e Europa, o impacto é mais indireto. A Alibaba Cloud tem presença internacional, mas vários governos ocidentais já proibiram ou desaconselharam o uso da cloud chinesa na função pública, e a moda das “clouds soberanas” na UE fecha ainda mais a porta. Continua a ser relevante, no entanto, porque é mais um grande ator a mostrar que quem controla a pilha completa, dos chips ao serviço de IA, controla também as margens. E isso encaixa na mesma lógica que leva países a apostar em infraestrutura própria de computação, como no caso do Brasil a dividir supercomputadores de IA entre China e EUA. A IA pode ser “nuvem”, mas o poder continua muito colado ao silício que a alimenta.
Fonte: The Register
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