Google e OpenAI andam há meses a vender a ideia de que uma pergunta a um modelo de IA gasta menos energia do que uns segundos de televisão. Zeke Hausfather, climatólogo e utilizador pesado de agentes de programação, decidiu medir o seu próprio uso. O resultado é incómodo: um agente de IA pode usar cerca de 600 vezes mais energia do que aquele número simpático por prompt que aparece nas apresentações.
Hausfather passou oito semanas a registar tudo o que fazia com o Claude Code, o agente de programação da Anthropic. Fez 1.138 pedidos e, a partir daí, o agente encadeou mais de 14.000 chamadas de modelo, num total de 3,2 mil milhões de tokens. A melhor estimativa do climatólogo é que essa brincadeira consumiu cerca de 170 kWh de electricidade em centros de dados, com uma margem de incerteza que vai dos 70 aos 330 kWh. Em média, cada input seu equivaleu a cerca de 150 Wh, quando a Google fala em 0,24 Wh para uma interação de texto com o Gemini e Sam Altman apontou a 0,34 Wh para uma pergunta ao ChatGPT.
O detalhe que mais expõe o fosso entre marketing e realidade é a forma como os agentes funcionam. Em Claude Code, 96% dos 3,2 mil milhões de tokens foram leituras de cache, porque o agente está constantemente a reler todo o contexto acumulado a cada passo. O texto que o utilizador vê no ecrã, a saída final do modelo, representa apenas 0,4% do processamento. Contar “prompts” como unidade de medida de consumo energético é, nas palavras de Hausfather, tão útil como contar “viagens” para avaliar o impacto climático de um carro, sem perguntar quantos quilómetros faz.
Esta diferença não é apenas académica. A própria indústria está a empurrar a IA para arquitecturas de agentes mais autónomos, com fluxos de trabalho que correm em segundo plano durante horas ou dias. Há um esforço concertado para normalizar plugins e ferramentas que permitem a estes agentes chamar serviços externos, escrever e executar código e orquestrar outros modelos, como se viu no recente movimento de Amazon, Microsoft e OpenAI para normalizar plugins de agentes IA. O problema é que cada camada de autonomia e contexto extra vem com um custo energético que não cabe nos slides cor-de-rosa sobre sustentabilidade.
Para pôr números em contexto: nas medições de Hausfather, um único dia intenso com o agente aproxima-se do consumo de duas máquinas de refrigeração a trabalhar. Extrapolado para um ano, o uso que ele fez do Claude Code tem emissões de CO₂ comparáveis a um secador de roupa eléctrico. Não é o fim do mundo, mas deixa claro que a pegada climática da IA não se esgota em meia dúzia de queries ocasionais, sobretudo quando se fala em escalar este tipo de agentes para milhões de utilizadores e fluxos automáticos contínuos em empresas e governos.
Hausfather insiste que o foco não deve ser culpar quem usa a tecnologia, mas pressionar onde interessa: a origem da energia que alimenta os centros de dados. Sem uma transição agressiva para fontes limpas, a curva de agentes autónomos vai empurrar o consumo de electricidade da IA para outra ordem de grandeza. Em Portugal e na Europa, onde se discute tanto regulação de dados e concorrência, a dimensão energética ainda está a meio-gás na conversa. Só que a factura de carbono desses “assistentes inteligentes” não desaparece por decreto. Ou entra no planeamento de infraestruturas já hoje, ou daqui a uns anos vamos descobrir que o verdadeiro custo dos agentes não foi o subscrição mensal, foi a conta de luz do planeta.
Fonte: The Decoder
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