A vaga de despedimentos por IA está a criar um barril de pólvora
As grandes tecnológicas despedem em massa com lucros recorde e culpam a IA. O problema já não é só o emprego, é a desigualdade explosiva que vem agarrada.
As grandes tecnológicas despedem em massa com lucros recorde e culpam a IA. O problema já não é só o emprego, é a desigualdade explosiva que vem agarrada.
As contas das grandes tecnológicas nunca estiveram tão gordas. Receitas recorde, lucros recorde. Ao mesmo tempo, só este ano, cerca de 150 mil pessoas foram despedidas de empresas tech, a um ritmo de quase mil por dia, segundo a TrueUp, que mantém um dos trackers de despedimentos mais citados do sector. A justificação oficial repete-se como um template de RP: inteligência artificial. A história é familiar. O que muda é a escala.
Os números mostram que a maré está a subir, não a descer. Maio foi o pior mês em dois anos em número de cortes, perto de 40 mil postos de trabalho, de acordo com a Challenger, Grey & Christmas. E, pelo terceiro mês consecutivo, a IA foi o motivo mais citado para despedimentos em praticamente todos os sectores. A narrativa é conveniente: não se fala em gestão falhada ou excesso de contratações na pandemia, fala-se em eficiência, automatização, futuro.
Só que as fissuras nessa narrativa já são públicas. O caso da Block é exemplar. Depois de dispensar perto de metade da empresa, Jack Dorsey jurou que não era sinal de problemas, era apenas a empresa a adaptar-se a uma nova forma de trabalhar graças aos ferramentas de IA. Quando confrontado no X com o inchaço criado nos anos de dinheiro barato, acabou por admitir que tinha, de facto, contratado em excesso. Marc Andreessen, um dos capitalistas de risco mais vocais, chamou à IA o “silver bullet excuse” para despedimentos que em muitos casos são pura correção de má gestão. Na leitura dele, quase todas as grandes empresas estão sobrelotadas, às vezes em 50% ou mais. A IA é a desculpa perfeita para limpar sem dizer a palavra culpa.
O que torna isto potencialmente explosivo é o contraste com quem está a enriquecer. A Cerebras Systems, fabricante de chips para IA, entrou em bolsa com uma valorização na casa dos 67 mil milhões de dólares, transformando os fundadores em bilionários em poucas horas, mesmo que as ações tenham corrigido depois. A SpaceX foi ainda mais longe, abriu capital e saltou para um valor em torno dos 2,1 biliões de dólares, fazendo de Elon Musk um trilionário em papel e criando milhares de novos milionários no processo. Anthropic e OpenAI seguem na fila com avaliações perto de 1 bilião de dólares cada. Uma minoria apertada apanha o elevador da IA até ao último andar, enquanto dezenas de milhares apanham a escada de incêndio para a rua.
As consequências não ficam nos gráficos de Wall Street. Em São Francisco, onde se concentram muitos destes laboratórios de IA, casas topo de gama vendem rotineiramente por milhões acima do preço pedido. Mark Zuckerberg acabou de comprar uma mansão de 170 milhões de dólares em Miami, batendo o recorde da região. Dois meses depois, a Meta anuncia o despedimento de 8 mil pessoas, cerca de 10% da força de trabalho. O padrão é óbvio o suficiente para não ser preciso um modelo generativo para o detetar.
Tudo isto acontece com uma classe média a ser apertada por todos os lados. Nos EUA, prémios de seguros de saúde pagos pelos trabalhadores sobem 6% a 7% num ano, o dobro da inflação. Os preços medianos das casas cresceram quase 30% desde o início de 2020, com taxas de juro da habitação praticamente duplicadas. Em sondagens recentes, uma maioria larga dos eleitores já diz que um estilo de vida de classe média está fora de alcance, e três em cada quatro apontam o custo de vida como principal preocupação económica. O que está em jogo não são só empregos perdidos, é o choque entre dezenas de milhares de pessoas empurradas para um mercado de trabalho duro e um punhado de insiders da IA a ver riqueza geracional aparecer no extrato. Culpar a IA por isto tudo é cómodo demais. A combinação de bolha accionista, desigualdade acelerada e discurso corporativo higienizado tem mais pólvora do que qualquer chatbot.
Fonte: TechCrunch
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