CXMT leva o Pentágono a tribunal e deixa a Europa a arder em DRAM
A quarta maior fabricante de memória do mundo acusa Washington de a tratar como braço militar chinês. No meio do fogo cruzado, a Europa continua sem fabricar um único chip de memória.
A quarta maior fabricante de memória do mundo acusa Washington de a tratar como braço militar chinês. No meio do fogo cruzado, a Europa continua sem fabricar um único chip de memória.
Enquanto a memória DRAM dispara de preço, a China põe um dos seus pesos pesados em tribunal nos Estados Unidos. A CXMT, quarto maior fabricante mundial de DRAM, processou o Departamento de Defesa em Washington para sair de uma lista que a classifica como “empresa militar chinesa”. Para o Pentágono é um rótulo político com efeitos limitados. Para a CXMT, é uma nódoa que assusta investidores e antecipa algo bem mais sério.
O processo, que nomeia o secretário da Defesa Pete Hegseth, tenta apagar a designação 1260H, criada pela lei de defesa norte‑americana. Tecnicamente, esta classificação “só” bloqueia contratos de defesa e marca a empresa junto de fundos e bancos. Não impede vendas comerciais privadas. Mas o sector lê isto como a antecâmara da Entity List, a lista que realmente corta acesso a tecnologia americana e pode paralisar uma fabricante de chips da noite para o dia.
A CXMT insiste que “não é uma empresa militar e não tem qualquer afiliação com o exército chinês”. Produz DRAM para consumo e dispositivos comerciais, incluindo DDR5 e LPDDR5X apresentadas na feira IC China em 2025. O mercado não parece muito incomodado com o rótulo: a empresa entrou em bolsa em Xangai a 27 de julho a 8,66 yuan por acção, abriu o dia 471% acima e, em pouco mais de duas semanas, ultrapassou a Tencent como companhia cotada mais valiosa da China, perto dos 3,54 biliões de yuan.
Este circo jurídico podia ser apenas mais um episódio da guerra tecnológica EUA‑China, da mesma linha de tensão que já vimos em casos como a pressão sobre a Huawei em centros de dados de IA. Mas a DRAM não é um detalhe de nicho, é o cimento básico de cada telemóvel, portátil, servidor ou consola vendidos na Europa. E os preços quadruplicaram em três trimestres, à medida que Samsung, SK hynix e Micron desviam capacidade para alimentar centros de dados de IA. A Europa, que não fabrica DRAM em volume, importa literalmente cada chip de memória que entra num produto europeu.
Há aqui um detalhe pouco discutido em Bruxelas. A União Europeia não tem um equivalente público à lista 1260H do Pentágono. Não há um documento europeu a dizer se uma empresa como a CXMT é aceitável ou não como fornecedora. Mas os controlos e listas dos EUA estendem‑se, de facto, às cadeias de abastecimento europeias, como ficou claro quando Pequim avisou que os controlos de exportação americanos podiam partir a cadeia de equipamento de semicondutores para todos. Um fabricante europeu que compre memória à CXMT assume risco jurídico americano sem qualquer enquadramento claro do lado europeu.
O resultado é simples: a Europa paga memória mais cara, depende de fabricantes estrangeiros que correm riscos políticos definidos em Washington e Pequim, e não tem política própria para o elo mais básico da pilha de hardware. Discute‑se fab plants para lógicas avançadas, mas DRAM continua fora do radar. A CXMT pode ganhar ou perder o braço‑de‑ferro com o Pentágono. O que não muda é isto: se nada for decidido em Bruxelas, quem decide que memória entra nos produtos europeus continua a ser alguém fora da Europa.
Fonte: The Next Web
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