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X diz ter travado bot farm chinesa contra centros de dados de IA

Rede de 200 mil contas no X foi ligada a uma campanha chinesa contra centros de dados de IA. A ironia: os bots usavam o próprio ChatGPT para fabricar indignação.

X diz ter travado bot farm chinesa contra centros de dados de IA

A guerra fria da IA está a passar pelos servidores, mas também pelos feeds. O X afirma ter identificado uma bot farm chinesa com 200 mil contas, parte delas dedicadas a espalhar mensagens contra centros de dados de IA e o seu impacto na eletricidade. Só 200 contas, diz a empresa, estavam focadas nesse tema, mas foram suficientes para tentar empurrar o debate energético dos EUA numa certa direção.

Segundo o relatório publicado na conta oficial de Assuntos Governamentais Globais da plataforma, esses perfis publicavam tiras de banda desenhada, imagens e textos a alertar para a pressão dos centros de dados sobre a rede elétrica e o aumento da fatura da luz para as famílias. A narrativa é simples: operadores gananciosos a lucrar com IA, povo a pagar a conta. A parte menos espontânea da história é que muitas das imagens e argumentos foram gerados com ferramentas da OpenAI, ou seja, IA a alimentar campanha contra… centros de dados de IA.

O detalhe não é coincidência. Em junho, a OpenAI já tinha divulgado um relatório onde descrevia uma operação de influência ligada à China que usava o ChatGPT para produzir conteúdo contra centros de dados, bem como insultos a dissidentes chineses e críticas a tarifas e políticas tecnológicas dos EUA. As ilustrações mostradas agora pelo X coincidem com as desse relatório. A suspeita é clara: o mesmo grupo, ou grupos coordenados, a experimentar terreno em várias frentes, energia incluída.

Convém separar ruído de sinal. Há preocupações legítimas com o consumo energético da IA. Segundo a Goldman Sachs, os preços da eletricidade nos EUA subiram 6,9 por cento em termos anuais até fevereiro de 2026, e o banco aponta a crescente procura dos centros de dados como um fator relevante. Em Portugal, qualquer pessoa que olhe para a fatura da luz não precisa de bots chineses para se preocupar com o futuro. E basta ver como a disputa por centros de dados de IA em países terceiros, como o caso da Huawei no Egito, já entrou no jogo geopolítico para perceber que isto é mais do que memes em rede social.

O X limita-se a prometer o costume, um “espaço público global” aberto mas protegido contra contas inautênticas, com suspensões para quem viole as regras de autenticidade. O problema é que a empresa não divulgou a lista de contas, nem detalhou o que faziam as outras 199.800. Fica a sensação de conferência de imprensa sem perguntas: o framing serve os interesses do X, coloca a China como vilã clássica e mostra boa vontade regulatória num momento em que a plataforma está sob escrutínio em várias jurisdições, da UE aos EUA.

Para o resto do mundo, Portugal incluído, o sinal útil está noutro lado. A combinação de IA generativa barata, redes sociais frágeis e competição estratégica entre potências está a normalizar operações de influência cada vez mais baratas e difíceis de detetar. Discutir o impacto energético da IA é necessário. Deixar que essa discussão seja guiada por redes opacas, alimentadas pela própria tecnologia que criticam, é que é a verdadeira piada. E não tem muita graça.

Fonte: Engadget

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