Altos responsáveis da União Europeia estão a ser atacados diretamente nos seus chats privados. Um documento interno de cibersegurança, obtido pelo Politico, coloca a tentativa de roubo de contas de mensageria de dirigentes europeus no topo das ameaças deste ano e, pela primeira vez, aponta o dedo a governos estrangeiros.
A apresentação da unidade de ciberdefesa da UE descreve uma campanha de spearphishing patrocinada por Estados. Em vez de spam massivo, falamos de mensagens altamente personalizadas, desenhadas para um alvo específico abrir um anexo ou clicar num link. O objetivo é simples, e brutal: tomar conta da conta de WhatsApp ou Signal de alguém com poder político, aceder às conversas, distribuir malware ou até usar a identidade daquele contacto para enganar outros. Segundo o documento, as instituições europeias já somam oito “incidentes significativos” de cibersegurança em 2026.
Este tipo de operação não é nova, mas o reconhecimento formal é raro. Até aqui, Bruxelas falava em “ameaças híbridas”, “atores avançados” e outras formulações higienizadas. Agora assume-se, preto no branco, que há governos a tentar entrar pelas janelas digitais das conversas mais sensíveis da UE. O padrão encaixa em campanhas recentes atribuídas a Rússia e Irão, incluindo o ataque que fechou uma central elétrica britânica durante quatro dias, numa linha de tensão que já não se limita a servidores de ministérios, mas chega aos telemóveis pessoais dos decisores.
O documento revela ainda um problema mais embaraçoso do que qualquer ataque isolado. As várias instituições europeias usam infraestruturas técnicas diferentes e não têm um sistema comum para troca de documentos sensíveis e classificados. Em 2026. Na prática, isto empurra muitos responsáveis para aquilo que têm à mão: grupos de WhatsApp, Signal ou Telegram para coordenar reuniões, negociar rascunhos e combinar respostas políticas. Quando se mistura conversa de gabinete com apps comerciais pensadas para o público em geral, o ataque deixa de ser “sofisticado”. Basta um link bem escrito. A situação faz lembrar outros casos em que a infraestrutura crítica falha primeiro dentro de casa, como quando milhares de chaves AWS expostas deixaram contas empresariais à mercê de quem as encontrasse.
Bruxelas anda inquieta há meses. A Comissão Europeia já tinha mandado encerrar um grupo de Signal usado por alguns dos seus quadros mais altos, por medo de intrusões. Vários serviços nacionais de cibersegurança e informação recomendam desde o início do ano a migração de comunicações oficiais para plataformas controladas pelo Estado, com auditorias próprias, em vez de depender de apps comerciais. Em março, pelo menos cinco agências europeias avisaram explicitamente sobre campanhas em Signal e WhatsApp, com alvos bem definidos: políticos, militares, diplomatas e jornalistas de investigação.
O truque usado nestes ataques nem é especialmente técnico. Os atacantes montam falsos chatbots de suporte dentro das próprias apps, fingem ser assistência oficial do serviço e pedem ao alvo que “verifique” a conta, divulgue códigos de autenticação ou clique num painel de “segurança reforçada”. Funciona porque as pessoas estão habituadas a resolver tudo por chat e porque grande parte da formação em cibersegurança ainda está presa ao email clássico. Enquanto a UE não arrumar a casa tecnológica e não tratar canais críticos como infraestruturas críticas, os governos hostis nem precisam de 0-days para entrar. Basta um número de telemóvel e um texto convincente.
Fonte: The Next Web
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