Facebook quer pôr-te num feed de vídeo em ecrã inteiro assim que abres a app. Literalmente. Tom Alison, chefe do Facebook, anunciou uma “experiência reinventada” que vai atirar uma parte dos utilizadores diretamente para vídeo vertical, num teste que começa ainda este ano em países onde o consumo de vídeo é dominante. Tradução: mais TikTok dentro do Facebook, com menos espaço para aquilo que em tempos foi uma rede social de amigos e família.
A Meta não mostrou maquetas desta nova interface, só garantiu que, se correr bem, o modelo chega aos Estados Unidos no próximo ano. A justificação é conhecida: “o vídeo é onde as conversas estão a acontecer, as comunidades se formam e o comércio começa a acontecer”. Também é onde está o crescimento que a empresa perdeu. No primeiro trimestre de 2026, os vários produtos Meta encolheram em 20 milhões de utilizadores, segundo dados da própria empresa. Mesmo continuando a ser a maior plataforma social do mundo, a sombra do TikTok e do YouTube está demasiado perto para o conforto de Menlo Park.
Há uma ironia aqui. Em 2022, o mesmo Tom Alison dizia numa entrevista que via o TikTok a correr atrás do Facebook, não o contrário. Hoje, o Facebook corre atrás do TikTok no feed de vídeo, do Reddit nas comunidades e do Craigslist nos classificados. A nova app Seller, lançada agora, é um exemplo claro. É uma aplicação separada, focada em vendedores do Marketplace, onde se pode gerir anúncios, falar com compradores e seguir desempenho, basicamente um painel de vendedor como tantos outros. Para o utilizador comum, significa mais fragmentação: Facebook para o feed, Seller para vender tralha, outra app para as comunidades.
Essa outra app já existe. Chama-se Forum e foi lançada no início do ano como um espaço dedicado a Grupos, a soar bastante a subreddits. A lógica até faz sentido do ponto de vista de produto, separar a confusão que o Facebook se tornou em caixinhas temáticas. Mas também é um sinal de que a plataforma principal já é tão barulhenta que precisa de clones de concorrentes para oferecer experiências mínimamente focadas. Do lado de quem está em Portugal, isto é mais uma camada em cima de uma app que já hoje é difícil de explicar a quem só lá entra para ver fotos da família ou seguir o grupo da escola dos miúdos.
Meta também mexe agora nos crachás de verificação. Até aqui, o selo azul estava basicamente preso à subscrição Meta Verified, a partir de 11,99$ por mês, num modelo de pay-to-look-legit parecido com o de Elon Musk no X. O novo plano passa a incluir um crachá gratuito, obtido através de um processo de verificação com selfie “simples”, segundo a empresa. Na teoria, isto ajuda a distinguir pessoas reais sem obrigar toda a gente a pagar. Na prática, é mais um sistema de camadas que abre espaço para confusão, abuso e phishing, num Facebook já cheio de clones de perfis e páginas falsas.
A obsessão com vídeo curto não vai desaparecer, até porque governos já tentaram travar o TikTok e recuaram, como aconteceu quando os EUA voltaram a permitir a app em dispositivos oficiais, algo que explicámos no artigo sobre o regresso do TikTok aos telemóveis do governo dos EUA. A questão é outra. Ao tentar ser tudo ao mesmo tempo, o Facebook continua a afastar-se do que o tornava útil: uma rede social previsível, mesmo que aborrecida. O novo feed em ecrã inteiro pode dar mais minutos de atenção, mas também consolida a sensação de que o Facebook se limita a copiar quem estiver a crescer mais nessa semana.
Fonte: The Verge
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